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Feito Pipa

Há algo de muito bonito na maneira como Feito Pipa nos apresenta Gugu (Yuri Gomes). Antes mesmo que o mundo tente dizer quem ele deveria ser, o filme faz questão de mostrar quem ele é. Adesivos, colares, maquiagem, uma capa de super-herói nos ombros e uma bicicleta para levá-lo por aí. Gugu joga futebol, dança com os amigos, se enfeita e parece existir sem precisar escolher uma única versão de si mesmo. Há uma liberdade quase absoluta naquele menino. Quando a avó pergunta aonde ele vai, a resposta vem com a convicção que só uma criança usando uma capa poderia ter: “Tô indo salvar o mundo”.

Talvez seja justamente por conhecermos Gugu dessa forma que doa tanto acompanhar o que acontece depois.

Dirigido por Allan Deberton e roteirizado por André Araújo, Feito Pipa entende muito bem o universo da infância e, principalmente, a violência que existe quando os adultos começam a interferir nele. Gugu é criado pela avó, Dilma (Teca Pereira), desde a morte da mãe. Mais do que avó, ela é sua amiga, cúmplice e porto seguro. É ao lado dela que ele encontra espaço para simplesmente ser. Os dois se protegem mutuamente, embora, aos poucos, essa relação comece a se inverter.

Primeiro são pequenos esquecimentos. Dilma coloca o celular no micro-ondas, confunde coisas, perde informações que antes pareciam banais. “Eu tô bem, Gugu. Só um pouco esquecida”, diz. O que inicialmente ainda cabe dentro do olhar lúdico das crianças vai adquirindo outra dimensão. Gugu e os amigos tentam ajudar como sabem: inventam brincadeiras, fazem jogo da memória, esquentam água, criam até uma reza. Há uma pureza nessas tentativas justamente porque eles ainda não compreendem a verdadeira dimensão do que está por vir.

Mas Gugu compreende cedo demais.

Aos poucos, ele deixa de ser apenas neto e passa a assumir responsabilidades que jamais deveriam pertencer a uma criança. Precisa cuidar da casa, pagar a conta de luz, conseguir comida, estudar e cuidar da avó. Em um dos momentos mais dolorosos, chega a fingir ser a própria mãe para confortá-la. Até que Dilma esquece também dele.

É aí que Feito Pipa encontra uma de suas ideias mais dolorosas: Gugu vive um luto mesmo sem a morte da avó. Ele perde Dilma aos poucos, mas também começa a perder a vida que existia ao redor dela. A casa, a rotina, a bicicleta, os amigos e, acima de tudo, a liberdade de ser quem é. Se no começo ele parecia invencível até diante do preconceito, é porque havia um lugar para onde voltar. Quando esse lugar desaparece, sua armadura começa a desaparecer junto.

Sem condições de continuar vivendo com a avó, Gugu vai morar com o pai, Batista (Lázaro Ramos), e a mudança não representa apenas uma troca de casa. É como se ele atravessasse uma fronteira entre dois mundos. Se com Dilma havia acolhimento, com Batista há uma tentativa constante de correção.

O pai quer que Gugu corresponda àquilo que ele entende como um menino deve ser. Incentiva o futebol, tenta controlar sua aparência e chega a questioná-lo: “Você quer ser jogador de futebol ou palhaço?”. O mais interessante é que o próprio Batista expõe as contradições dessa masculinidade que tenta impor ao filho. Ele sequer gosta de futebol e gosta de cozinhar, atividade historicamente associada ao feminino dentro de casa, mas ainda assim parece precisar enquadrar Gugu em uma ideia rígida do que considera aceitável.

Em nenhum momento é necessário definir a sexualidade daquele menino. Gugu é uma criança. O que existe é uma criança descobrindo seus gostos e construindo sua identidade, enquanto os adultos ao redor projetam medos e preconceitos que ainda nem deveriam fazer parte de seu mundo.

E talvez seja essa uma das violências mais incômodas do filme. Batista não precisa saber quem Gugu será no futuro para temê-lo. Basta perceber no filho qualquer possibilidade de diferença. Ao tentar protegê-lo do julgamento alheio — ou, talvez, proteger a si próprio da vergonha que sente diante desse julgamento —, acaba se tornando justamente aquele que mais restringe sua liberdade.

A diferença entre o tratamento dado a Gugu e à filha torna isso ainda mais evidente. Para ela parece existir espaço para simplesmente ser; para ele, cada gesto pode se transformar em algo a ser corrigido.

A transformação também acontece visualmente. O menino que conhecemos coberto de acessórios, andando de bicicleta e carregando uma capa de super-herói começa a ser vestido à imagem do pai. Não é apenas uma mudança de roupa. Aos poucos, parece que estão apagando tudo aquilo que o filme fez questão de nos apresentar no início.

Por isso a bicicleta, a capa e principalmente a pipa carregam um significado tão bonito dentro da narrativa. São imagens de movimento e liberdade. A pipa só existe plenamente quando pode ganhar o céu, ainda que permaneça ligada a alguém por uma linha. Gugu também precisa desse espaço. Precisa de vínculos que não funcionem como amarras.

A fotografia árida do sertão cearense contrasta com a vivacidade desse protagonista e com uma trilha sonora que vai de “Time After Time”, de Cyndi Lauper, a Pabllo Vittar. Há cor, música e imaginação atravessando uma paisagem seca, como se o próprio Gugu insistisse em colorir um mundo que repetidamente tenta torná-lo menor.

Talvez por isso uma frase aparentemente simples carregue tanto peso quando ele diz: “Eu não tô triste, só tô com raiva”.Porque existe algo profundamente injusto em assistir a uma criança precisar encontrar palavras para sentimentos provocados por problemas que deveriam pertencer aos adultos.

Feito Pipa fala de preconceito, mas o que mais me atravessou foi perceber como esse preconceito consegue invadir justamente aquilo que deveria estar protegido dele: a infância. Gugu começa o filme acreditando que pode salvar o mundo. E talvez o mais doloroso seja perceber que, ao longo da história, são os adultos que deveriam estar preocupados em salvar o mundo para ele.

Selecionado para representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional, Feito Pipa terá sua primeira exibição no Rio de Janeiro hoje, 6 de outubro, durante o Festival do Rio. A sessão de gala acontece no Centro Cultural FGV, em Botafogo, dentro da Première Brasil, e contará com a presença do diretor Alan Deberton e do elenco, incluindo Yuri Gomes, Lázaro Ramos e Teca Pereira.

Depois da sessão desta noite, o longa terá outras cinco exibições no Festival do Rio, entre os dias 8 e 14 de outubro. Já a estreia nos cinemas de todo o Brasil está marcada para 5 de novembro.

Você encontra Feito Pipa no Festival do Rio.

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Funk: O Sonho é chegar, O Desafio é não desaparecer

Existe uma distância considerável entre sonhar e ter condições de sustentar um sonho. Funk, novo longa de Aly Muritiba, parece particularmente interessado nesse espaço: o lugar em que desejo, dinheiro, identidade e sobrevivência se misturam.

Em competição na Première Brasil do Festival do Rio 2026, o drama musical acompanha Sabrina (Duda Santos), jovem do Morro dos Prazeres que quer fazer do funk sua vida. Filha de Priscila (MC Neném), uma funkeira que já experimentou seu próprio momento de reconhecimento, Sabrina sabe onde pretende chegar. O que ainda não sabe é quanto de si mesma será cobrado para permanecer no palco.

Antes de qualquer sucesso, porém, existe a vida. Sabrina precisa trabalhar, pagar as contas, levar desaforo, enfrentar o racismo e ainda encontrar energia para acreditar que alguém vai notar seu talento e lhe oferecer uma oportunidade. Há algo muito verdadeiro nessa dimensão do filme: sonhar também custa dinheiro. Para quem não nasce cercado de facilidades, não basta possuir talento. É preciso conseguir sustentá-lo.

“Sabe o que eu quero? Eu quero comemorar a minha liberdade.”

Essa liberdade passa também pelo corpo e pelo direito de desejar. Ao entrar no universo do funk putaria, o filme encontra uma de suas provocações mais interessantes. Sabrina reivindica uma linguagem sexual aceita com naturalidade quando parte dos homens, mas constantemente policiada quando vem das mulheres. “A putaria é liberdade, mas também amor”, diz ela. Prazer e afeto não precisam estar em lados opostos.

Só que essa liberdade encontra limites o tempo inteiro. Sabrina enfrenta racismo no trabalho, questiona a diferença de cachê entre homens e mulheres e convive com a violência policial e com outros poderes que determinam como corpos periféricos podem circular.

Por isso o Rio que aparece em Funk me interessou tanto. O filme não reduz a cidade à favela ou ao baile, muito menos ao cartão-postal. Há praia, futebol, trabalhadores, festas, amigos e uma cidade vivida por quem precisa atravessá-la todos os dias.

A fotografia é um dos aspectos que mais chamam atenção. Em vários momentos, ela me levou a certo imaginário visual brasileiro dos anos 2000, algo entre a energia de Cidade de Deus e a estética popular de Furacão 2000. Não como cópia, mas pela textura, pelas luzes e pela maneira de encontrar beleza naquele universo. A trilha sonora e a montagem ajudam a manter essa pulsação.

Isso se relaciona diretamente com uma ideia defendida pela equipe: não fazer simplesmente um filme sobre o funk, mas um filme com o funk. A diferença é importante. O gênero não é apenas assunto. Está nos figurinos, nas coreografias, na linguagem, nos corpos e na própria construção estética do longa. Muritiba chegou a comparar seu processo criativo ao uso de samples, reunindo referências de fotografias, videoclipes e registros caseiros para construir algo próprio e real.

Duda Santos sustenta bem essa energia. Sua Sabrina tem fome de chegar ao próximo lugar. Quer palco, dinheiro, reconhecimento e liberdade. E é justamente quando começa a conseguir tudo isso que o filme encontra sua contradição mais interessante.

Ao trocar a amiga Raíssa (Lellê), que administrava sua carreira, por um empresário capaz de levá-la a outro patamar, Sabrina ganha estrutura, alcance e uma imagem mais polida. Só que esse polimento começa a parecer higienização. Quanto mais a indústria percebe seu potencial comercial, mais tenta aparar justamente aquilo que a fazia singular.

Sabrina finalmente consegue ser vista. A questão passa a ser: quem estão vendo quando olham para ela?

Raíssa pode ser uma empresária inexperiente, que erra e aprende na prática como aquele mercado funciona, mas conhece Sabrina antes de conhecer o produto. Há algo interessante até no sentido afetivo da palavra “amadora”: ela está ali também porque ama a amiga. A profissionalização posterior oferece eficiência, mas cobra outro preço.

Dentro de casa, existe ainda a relação difícil com Priscila. Sabrina cobra uma mãe que sente não ter tido, enquanto Priscila observa a ambição da filha com a experiência de quem já conheceu alguma versão daquele sonho e suas decepções. Entre as duas existem orgulho, mágoa, admiração e amor, mesmo quando nenhuma sabe exatamente como demonstrá-lo.

Mas talvez Sabrina precise percorrer todo esse caminho para finalmente compreender aquilo que não conseguia enxergar no começo.

Ela passa boa parte do filme olhando para a frente. O futuro significa sucesso, dinheiro, palco e reconhecimento; o passado parece representar tudo aquilo que precisa superar. Até que realiza o sonho e descobre que ele não era exatamente como havia imaginado.

É preciso chegar para perceber o que ficou pelo caminho.

Assim, Funk deixa de ser apenas uma história sobre uma jovem periférica que quer vencer na música. É também um filme sobre pertencimento e sobre o risco de conquistar um espaço que exige, em troca, o abandono daquilo que fez você chegar até ele.

Sabrina passa tanto tempo procurando no futuro uma versão melhor de si mesma que quase perde de vista quem sempre foi. Sua trajetória está justamente em recuperar essa identidade — os amigos, a mãe, o morro, sua linguagem, seu desejo — sem que isso signifique abrir mão de seguir adiante.

Porque talvez a verdadeira liberdade que Sabrina tanto procura não esteja apenas em chegar ao palco. Está em conseguir ocupá-lo sem precisar desaparecer.

Você encontra Funk no Festival do Rio.

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Contos Paralelos

Contos Paralelos: Quem observa quem quando a vida começa a imitar a ficção?

Existe uma ideia frequentemente associada a Jiddu Krishnamurti que diz que “o observador é o observado”. É justamente nessa fronteira entre quem olha e quem é olhado que Contos Paralelos, de Asghar Farhadi, encontra uma de suas questões mais interessantes. Porque aqui observar nunca é um ato completamente passivo. A partir do momento em que alguém olha para a vida do outro, interpreta aquilo que vê e transforma essa realidade em narrativa, já não estamos mais falando apenas de observação. Estamos falando de interferência.

Sylvie (Isabelle Huppert) é uma escritora em crise criativa que praticamente não sai de seu apartamento em Paris. Cercada por uma casa caótica — quase como uma extensão visual de sua própria mente, algo que ela mesma verbaliza ao dizer que sua cabeça está um caos —, ela encontra nas janelas do prédio em frente uma possibilidade de voltar a escrever. Com uma pequena luneta, observa secretamente a vida de Anna (Virginie Efira), Theo (Pierre Niney) e Nicolas (Vincent Cassel) e começa a transformar aquelas pessoas em matéria-prima para sua ficção.

Mas até que ponto aquela história pertence realmente a eles?

Farhadi constrói seu roteiro revelando informações aos poucos, principalmente através dos diálogos, sem transformar cada descoberta em uma explicação para o espectador. Aos poucos, pequenas repetições começam a provocar um estranhamento. Sylvie corta o pé em um caco de vidro; depois, Anna também se corta. Sylvie comenta que não usa micro-ondas porque acredita que pode lhe causar câncer e prefere esquentar tudo em banho-maria; algum tempo depois, ouvimos praticamente a mesma ideia partir de Anna.

Coincidência? Projeção? Memória? Ficção?

É nesse momento que Contos Paralelos começa a brincar de maneira ainda mais interessante com a nossa percepção. Se Anna repete Sylvie, talvez aquilo que estamos vendo não seja exatamente a vida daquela mulher, mas a voz da própria escritora colocada em outra personagem. E quanto mais Sylvie observa aquelas janelas, mais parece usar pessoas reais para reconstruir algo que pertence a ela: suas lembranças, sua infância, seus pais e até um passado que talvez precise ser reinventado para continuar existindo.

A fotografia acompanha essa dúvida. Há uma diferença perceptível entre os dois universos. Anna, Theo e Nicolas aparecem inicialmente envolvidos por uma paleta mais fria, enquanto Sylvie, Adam e Laurence (India Hair) habitam tonalidades um pouco mais quentes. A distinção parece funcionar como uma pista para separar realidade e criação, presente e memória. Só que Farhadi não demora a embaralhar aquilo que parecia tão facilmente divisível.

E talvez seja justamente esse o ponto.

Quando Adam (Adam Bessa) entra na vida de Sylvie, contratado inicialmente para ajudá-la nas tarefas do cotidiano, ele também começa a entrar em sua história. Primeiro como curioso, depois como leitor e, finalmente, como alguém que passa a interferir na própria narrativa. Sylvie ganha um companheiro de observação. Ou talvez um substituto.

Adam também se torna voyeur.

Só que, a partir do manuscrito inacabado de Sylvie, ele começa a imaginar sua própria versão daqueles personagens. A história deixa de pertencer exclusivamente a quem começou a escrevê-la. Uma nova imaginação significa novas possibilidades e, consequentemente, uma nova perspectiva para aquelas vidas.

Existe algo muito bonito na ideia de que um personagem só permanece vivo enquanto houver papel, enquanto a tinta continuar lhe dando existência. Mas o que acontece quando esse personagem foi inspirado por alguém que existe do outro lado da janela?

É aí que a pergunta clássica — a vida imita a arte ou a arte imita a vida? — deixa de parecer apenas uma provocação filosófica e passa a interferir diretamente na estrutura do filme.

Sylvie e Adam olham para a vida e a transformam em arte. Anna, Theo e Nicolas, por outro lado, eventualmente entram em contato com essa arte e passam a permitir que ela interfira em suas próprias vidas. A ficção nasce da realidade e depois retorna para modificá-la. Uma alimenta a outra até que seja praticamente impossível descobrir qual delas veio primeiro.

E, no meio disso tudo, onde fica a privacidade?

Sylvie observa sem ser vista. Adam passa a observar com ela. Anna, Theo e Nicolas são observados até o momento em que também passam a olhar de volta. O observador se torna observado, e aquilo que parecia uma relação unilateral passa a funcionar como um espelho. Talvez ninguém consiga olhar para o outro por tanto tempo sem acabar encontrando alguma coisa de si mesmo.

Essa construção ganha ainda mais força através do som, que em Contos Paralelos praticamente assume a posição de um personagem. Não apenas porque Anna, Theo e Nicolas trabalham justamente com a criação de sons para o cinema ou televisão, mas porque Farhadi faz com que passemos a prestar atenção naquilo que normalmente seria absorvido quase inconscientemente.

O teclado de Sylvie, os ruídos da rua, pequenos sons cotidianos: tudo ganha uma presença muito concreta, quase plástica. E existe uma ironia especialmente interessante em acompanhar personagens que fabricam sons para dar veracidade a uma ficção enquanto o próprio filme questiona o tempo inteiro o que é verdadeiro e o que foi fabricado. Para muita gente, o som de um filme parece simplesmente existir. Contos Paralelos chama atenção justamente para o fato de que ele também é construção.

Assim como aquela história.

Talvez por isso uma das provocações mais interessantes venha de Adam: “É possível ser escritor sem nunca ter escrito uma linha?”

A pergunta parece simples, mas carrega outra questão por trás dela. É a escrita que transforma alguém em escritor ou é a capacidade de imaginar? Uma história precisa existir no papel para ser real? E por que a imaginação incomoda tanto quando ela começa a escapar de quem supostamente deveria controlá-la?

Para Anna, sua própria vida é comum, até monótona. Para quem a observa da janela, porém, ela pode se transformar em literatura. Talvez seja justamente esse o poder — e também o perigo — da imaginação: pegar uma existência aparentemente banal, preencher seus espaços vazios e criar uma história onde antes parecia não existir nenhuma.

Em Contos Paralelos, ninguém permanece apenas de um lado da janela. Quem observa acaba sendo observado. Quem inspira uma história passa a ser afetado por ela. Quem escreve já não controla completamente aquilo que escreveu.

E, quando vida e ficção começam a olhar uma para a outra, talvez descobrir qual delas está imitando a outra já nem seja mais o mais importante.

CONTOS PARALELOS NO FESTIVAL DO RIO

Contos Paralelos integra a programação do Festival do Rio e terá quatro exibições, sendo as duas primeiras sessões com a presença do diretor Asghar Farhadi. O cineasta também participa de uma aula aberta e gratuita no dia 3 de outubro.

SESSÃO DE GALA — com a presença de Asghar Farhadi
2 de outubro, sexta-feira | 19h
Cine Odeon — Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro

AULA ABERTA COM ASGHAR FARHADI
3 de outubro, sábado | 11h
Armazém Utopia
A entrada é gratuita para o público, com distribuição de ingressos uma hora antes do horário marcado. Evento sujeito à lotação.

SEGUNDA SESSÃO — com a presença de Asghar Farhadi
3 de outubro, sábado | 18h30
Reserva Cultural Niterói 1

TERCEIRA SESSÃO
4 de outubro, domingo | 21h45
Kinoplex São Luiz 2

QUARTA SESSÃO
6 de outubro, terça-feira | 16h
Estação Claro Gávea 3

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Verity

Verity transforma a casa em testemunha de uma história em que ninguém parece dizer toda a verdade

Existe uma pergunta que atravessa Verity desde o início: Quem é o vilão?

Dirigido por Michael Showalter e adaptado do best-seller de Colleen Hoover, Verity parte justamente de um universo em que a perspectiva do vilão importa. Verity Crawford (Anne Hathaway) construiu sua carreira escrevendo a partir desse ponto de vista, e talvez seja por isso que, quando o filme começa a embaralhar ficção e realidade, verdade e manipulação, seja tão difícil saber em quem acreditar. Porque, afinal, todos podem estar contando uma história. E toda história depende de quem a conta.

Antes mesmo de mergulhar nesse jogo, porém, o filme parece fazer três apresentações. Primeiro, a casa. Depois, Verity. E, por fim, Lowen. E não é por acaso que a casa vem primeiro.

Há algo nela que ultrapassa a função de cenário. A propriedade dos Crawford é tão sombria quanto as personagens que a habitam e, aos poucos, assume quase a posição de uma testemunha silenciosa. É ela que esteve ali. É ela que viu as diferentes versões daquela história acontecerem. Se existe alguém capaz de saber a verdade, talvez seja justamente aquela casa. O problema é que ela não pode falar.

Verity surge em outro tempo, no auge da carreira, durante uma entrevista. Lowen Ashleigh (Dakota Johnson), por sua vez, é apresentada no presente, em uma situação quase oposta: está em uma livraria para o lançamento de seu livro, mas praticamente ninguém parece estar ali por ela. É uma escritora em dificuldade, sem público e precisando de dinheiro. Curiosamente, pouco depois, Lowen diz gostar de ser invisível.

E essa frase permanece.

Porque fica a dúvida: sua falta de sucesso vem apenas da ausência de oportunidades ou existe nela algum conforto nessa invisibilidade?

É justamente essa mulher que receberá uma oportunidade capaz de mudar sua vida. Depois de um encontro improvável com Jeremy Crawford (Josh Hartnett), marido de Verity, Lowen é contratada para terminar a série de livros da escritora, agora impossibilitada de escrever. Há uma necessidade financeira evidente; a morte da mãe deixou dívidas, mas existe também a possibilidade de finalmente se aproximar daquele reconhecimento que nunca teve.

Só que há uma contradição interessante nisso: para ser reconhecida, Lowen precisa desaparecer. Como ghostwriter, seu trabalho exige que ela escreva como outra pessoa. Não basta concluir uma história. Ela precisa encontrar a voz de Verity, reproduzir seu ritmo, compreender sua lógica e entregar aos leitores aquilo que eles esperam daquela autora. Para escrever como Verity, portanto, Lowen precisa entrar em sua cabeça. E é exatamente aí que Verity começa a se tornar mais interessante.

Na propriedade isolada da família, em Vermont, Lowen passa a conhecer não apenas a obra de uma escritora que até então sequer havia lido, mas os fragmentos de uma vida marcada por tragédias. Entre livros, rascunhos e anotações, ela encontra o que parece ser um manuscrito autobiográfico de Verity. E, conforme lê, a pergunta deixa de ser apenas o que aconteceu naquela casa para se tornar outra: Quem é Verity?

Ela é a mulher daqueles escritos? É tão perturbadora quanto as personagens que criou? O manuscrito é uma confissão, um exercício literário ou alguma coisa entre os dois?

Michael Showalter constrói boa parte do suspense justamente nesse espaço de incerteza. O filme nos coloca dentro da cabeça de Verity através dos olhos de Lowen, mas nunca oferece segurança suficiente para sabermos se aquilo que vemos pertence à realidade, à escrita ou à imaginação de quem lê. É nesse aspecto que fotografia e montagem se tornam fundamentais.

A casa é cercada pela natureza e, ao mesmo tempo, parece permitir que essa natureza invada seus interiores. Há vidro por toda parte, grandes superfícies transparentes, uma arquitetura que cria a impressão de que tudo pode ser visto. É uma escolha particularmente interessante para uma história construída em torno daquilo que permanece escondido. Quanto mais transparente a casa parece, menos conseguimos enxergar o que realmente aconteceu dentro dela.

Essa sensação também aparece na maneira como as imagens são organizadas. Verity trabalha com sobreposições, paralelismos e imagens que coexistem dentro do quadro. Quando Lowen lê, as palavras podem invadir a tela; enquanto acessa os relatos, aquilo que imagina ganha corpo diante de nós. Presente e passado passam a ocupar o mesmo espaço visual. A leitura deixa de ser apenas uma ação para se transformar em imagem. E existe um perigo aí: nós também começamos a ver como Lowen vê.

A montagem não apresenta simplesmente um passado objetivo. Ela materializa uma versão desse passado. Conforme Lowen mergulha na escrita de Verity, o espectador mergulha junto e começa a perder a capacidade de separar aquilo que aconteceu daquilo que foi escrito,  e aquilo que foi escrito daquilo que foi imaginado.

A trilha sonora reforça essa instabilidade e a sensação constante de que alguém está observando. Há alguma coisa naquela casa que nunca permite que Lowen,  e consequentemente o espectador,  esteja completamente confortável.

É nesse ambiente que Anne Hathaway encontra talvez um dos desafios mais curiosos do filme. Durante boa parte da narrativa, Verity está em uma cadeira de rodas, aparentemente catatônica. Os médicos falam em movimentos involuntários e em poucas possibilidades de recuperação. Hathaway, portanto, precisa construir presença justamente pela ausência do movimento e da palavra. E ainda assim existe alguém ali.

Um olhar, uma pequena alteração, um gesto que talvez tenha acontecido; ou talvez não. A interpretação funciona porque nos obriga a observar Verity com a mesma obsessão de Lowen. Procuramos sinais naquele corpo. Tentamos descobrir se houve intenção onde aparentemente não deveria existir nenhuma. E, a partir de certo momento, já não sabemos se estamos realmente vendo esses sinais ou se, assim como Lowen, passamos a querer encontrá-los.

Dakota Johnson funciona como o nosso caminho para dentro desse labirinto. Lowen chega à casa como uma observadora, mas observar nunca é um gesto completamente neutro. Quanto mais conhece Verity, mais se aproxima de sua vida, de sua escrita e de Jeremy. E, aos poucos, as fronteiras começam a se embaralhar. Talvez seja por isso que a ideia de repetição se torne tão inquietante.

Ao entrar na cabeça de Verity para conseguir escrever como ela, até onde Lowen continua sendo Lowen? Quanto existe de identificação, quanto existe de projeção e quanto existe de desejo nessa aproximação? Em algum momento, conhecer a história de outra pessoa pode significar também começar a ocupar o seu lugar?

Verity encontra sua força justamente quando não responde imediatamente às perguntas que cria. Ficção e realidade, manipulação e atração, oportunidade e obsessão começam a existir próximas demais umas das outras. E, quando cada personagem pode carregar sua própria versão dos acontecimentos, a verdade deixa de ser uma certeza para se transformar em disputa. Talvez por isso a casa seja uma presença tão importante.

Enquanto todos falam, escrevem, lembram, imaginam ou escondem, ela permanece ali. Silenciosa. Assistiu a Verity antes da chegada de Lowen, observa Lowen tentando compreendê-la e guarda dentro de si acontecimentos que conhecemos apenas através das versões de outras pessoas. No fim, voltamos à pergunta inicial: quem é o vilão?

Talvez a inquietação de Verity esteja justamente em perceber que, antes de responder, é preciso decidir em qual história estamos dispostos a acreditar.

Você encontra Verity nos cinemas a partir de hoje .

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“Precisamos Falar” e a Pergunta que ninguém gostaria de Responder

Até onde você iria para proteger um filho? E quando o amor deixa de ser proteção e passa a ser conivência? “Precisamos Falar” transforma essas perguntas em um thriller psicológico incômodo, daqueles que não terminam quando as luzes da sala se acendem.

“Saúde, justiça e respeito.” A frase poderia ser apenas mais um jingle de campanha política. No entanto, em Precisamos Falar, ela ganha um peso quase irônico. Celso (Emilio de Mello) está concorrendo ao governo do Estado do Rio de Janeiro e, enquanto vende ao eleitor um discurso sobre justiça, dentro de casa precisará descobrir até onde realmente acredita nela.

Antes disso, porém, o filme nos coloca diante de uma câmera de celular. É através dela que vemos um ato brutal cometido por três adolescentes contra Antônia, uma mulher em situação de rua que recolhe papelão. A cena serve para deixar o espectador de boca aberta, mas também estabelece algo fundamental para tudo o que virá depois: estamos diante de imagens, versões, edições e narrativas. Michel (Thiago Voltolini) filma. Michel edita. Michel quer colocar na internet.

E aquele não é seu primeiro vídeo. É o décimo.

Talvez seja justamente aí que comece uma das perguntas mais importantes de Precisamos Falar: em que momento aquilo que os adultos chamam de “coisa de adolescente” deixa de ser apenas inconsequência? Michel já havia dado sinais. No comportamento, nas palavras, em uma redação escolar, na maneira racista e desumanizada de enxergar o outro. Existe uma crescente. E quando não encontra limite, ele continua avançando, e leva consigo os outros dois adolescentes, seus primos. Sua justificativa para provocar Antônia é assustadora justamente por sua simplicidade: caixa eletrônico é lugar de tirar dinheiro, não de dormir. Parece uma frase pequena, mas existe um mundo inteiro dentro dela.

Quem decidiu quem pode ocupar determinados espaços? Em que momento uma pessoa deixa de ser vista como pessoa e passa a ser entendida como alguém que está simplesmente “no lugar errado”? E quantas violências precisam acontecer antes da violência definitiva para que alguém perceba que alguma coisa está errada? Quando os pais finalmente são confrontados com o que os filhos fizeram, surge uma frase que talvez sintetize boa parte do problema: “Não são criminosos. São moleques fazendo merda.”

Mas qual é o limite desse “fazer merda”?

Existe um ponto em que passar a mão na cabeça deixa de ser amor. Fazer vista grossa também é uma escolha. Fingir que não sabe também é uma escolha. Permanecer em silêncio quando se conhece a verdade também é uma escolha. É nesse território que o filme dirigido por Pedro Waddington e Rebecca Diniz encontra sua maior força. Adaptado do best-seller internacional O Jantar, do escritor holandês Herman Koch, o longa transporta a história para uma realidade profundamente brasileira. O roteiro de Sérgio Goldenberg, com supervisão de Jorge Moura, coloca a polarização política, a desigualdade social, o privilégio e a própria relação do país com a justiça no centro dessa família. E então vem a pergunta mais difícil: o amor por um filho está acima de tudo?

Em determinado momento, alguém questiona:

“E que exemplo nós daríamos aos nossos filhos esquecendo o assunto?”

“Lealdade.”

“Lealdade ou conivência?”

É uma troca curta, mas talvez seja uma das conversas mais importantes do filme. Porque lealdade é uma palavra bonita. Amor também. Família também. Mas palavras bonitas podem servir para justificar coisas terríveis? Quando quatro adultos conhecem a verdade sobre três adolescentes, o problema deixa de pertencer somente aos jovens.

A cada tentativa de esconder, manipular ou encontrar uma saída, a responsabilidade começa a se espalhar pela mesa. E surgem soluções cada vez mais desconfortáveis: ninguém sabe quem são os adolescentes, então por que não permanecer em silêncio? Por que não encontrar alguém para levar a culpa? Por que não usar dinheiro para resolver o problema? É o privilégio revelando uma de suas faces mais perversas: acreditar que talvez exista sempre uma porta de saída; desde que você tenha dinheiro, influência ou poder suficiente para encontrá-la.

No caso de Celso, há ainda outra camada. Existe uma eleição. Existe uma imagem pública.  E talvez seja fácil defender princípios enquanto eles não nos custam nada. O difícil é descobrir se continuamos acreditando neles quando o preço passa a ser nosso.

Precisamos Falar também encontra força visual nesse contraste. Boa parte do conflito acontece em uma casa deslumbrante, cercada por verde, natureza, plantas e uma vista privilegiada do alto do Rio de Janeiro. Tudo parece bonito, organizado, protegido. Enquanto isso, por dentro, aquela família está ruindo. A fotografia mais escura e sombria e uma trilha que parece querer incomodar acompanham essa deterioração. E faz sentido: este não é um filme que deseja deixar o espectador confortável.

As atuações de Marjorie Estiano, Alexandre Nero, Hermila Guedes e Emílio de Mello ajudam muito nisso. O conflito não funciona apenas como discussão abstrata sobre ética. São pais olhando para os próprios filhos e percebendo que qualquer decisão terá consequências. E é justamente por conseguirmos enxergar o medo, o amor, o egoísmo e as contradições desses adultos que a pergunta deixa de pertencer apenas aos personagens.

Ela chega até nós.

O filme também toca em questões como adoção, relações entre irmãos e primos, responsabilidade de menores de idade, exposição nas redes sociais e o alcance de uma internet em que uma violência pode ser filmada, editada e transformada em conteúdo. Michel não apenas participa: ele registra. E existe algo especialmente contemporâneo e assustador nisso. A câmera deixa de ser testemunha e passa, de alguma maneira, a fazer parte do próprio ato. Nesse sentido, quando se fala em regulamentação da internet, outra pergunta se abre: o que significa regulamentar um espaço em que atos de violência, racismo e humilhação podem virar conteúdo, circular e incentivar novas violências? E onde termina a responsabilidade das plataformas e começa a responsabilidade de pais, escolas e dos próprios usuários?

A imprensa também aparece como uma espécie de janela para o lado de fora daquela casa. Enquanto os adultos discutem o que fazer entre quatro paredes, existe uma população revoltada querendo respostas. Existe uma vítima. Existe uma sociedade que não conhece os dilemas íntimos daquela família; conhece apenas o resultado de seus atos. E talvez seja importante que seja assim. Porque, quando amamos alguém, conhecemos sua história, seus medos, suas qualidades, suas fragilidades. Para nós, ele nunca é apenas aquilo que fez. Mas a pessoa que sofreu as consequências daquele ato também tinha uma história. Antônia tinha uma história.

É muito fácil perguntar se entregaríamos um desconhecido à Justiça. Mais difícil é perguntar: e se fosse o meu filho? E se fosse meu sobrinho? O amor muda o peso de uma culpa? Talvez Precisamos Falar seja exatamente sobre aquilo que o título anuncia. Precisamos falar sobre os filhos que criamos. Sobre aquilo que eles reproduzem do que escutam dentro de casa. Sobre privilégio. Sobre racismo. Sobre dinheiro. Sobre internet. Sobre justiça. E, principalmente, sobre a facilidade com que transformamos nossos princípios quando eles começam a atingir aqueles que amamos.

Produzido pela Conspiração, em coprodução com a Globo Filmes, e distribuído pela Sony Pictures e Conspiração, Precisamos Falar estreia nos cinemas brasileiros em 24 de setembro.  É um thriller psicológico, mas talvez seu maior suspense não esteja em descobrir o que aconteceu. Nós sabemos o que aconteceu. O verdadeiro suspense é descobrir o que cada pessoa é capaz de fazer depois de saber a verdade. E, quando o filme acaba, sobra uma pergunta que já não pertence mais àquela família: se fosse o seu filho, o que você faria?

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Virtuosas

Virtuosas transforma a busca pela mulher perfeita em um terror assustadoramente próximo da realidade

Há algo particularmente perturbador em um filme de terror quando aquilo que deveria provocar estranhamento parece familiar demais. Em Virtuosas, novo longa de Cíntia Domit Bittar, o horror nasce justamente dessa proximidade. Ao mergulhar no universo das trad wives, as chamadas esposas tradicionais que ganharam força nas redes sociais ao defender uma feminilidade pautada pela submissão, pelo casamento, pela maternidade e por determinadas interpretações dos preceitos bíblicos, o filme constrói uma sátira ácida sobre mulheres que procuram alcançar um ideal de perfeição que talvez sequer exista.

Virtuosas acompanha três mulheres selecionadas para participar de um retiro exclusivo comandado pela admirável e inspiradora Virgínia Heinzel, vivida por Bruna Linzmeyer. A promessa é tentadora para quem acredita naquele universo: uma imersão capaz de ensiná-las a se tornarem mulheres, esposas e mães melhores. O que começa como uma experiência de aperfeiçoamento pessoal, porém, gradativamente assume contornos perturbadores e transforma aquela jornada em algo assustador.

O roteiro, assinado por Cíntia Domit Bittar e Fernanda Capua, encontra no movimento das trad wives um terreno especialmente fértil porque não se limita a ridicularizar suas personagens. Existem diferentes relações com aquele discurso.

Durante o retiro, as mulheres aprendem aquilo que supostamente constituiria uma esposa exemplar. É preciso acordar cedo, preparar a comida e a marmita do marido, conhecer a disposição correta dos elementos de uma mesa, cuidar da casa, da família, rezar e compreender seu papel dentro do casamento. O homem provê e protege; a mulher cuida. Os momentos em família são sagrados.

Mas, diante de tantas regras sobre como cuidar dos outros, uma pergunta começa a atravessar o filme: em que momento essas mulheres cuidam de si mesmas?

A submissão também ganha uma discussão curiosamente mais complexa do que inicialmente parece. Em determinado momento, surge o argumento de que todos somos submissos a alguma coisa. Somos submissos ao trabalho, aos chefes, aos sentimentos, às expectativas e às pessoas. A constatação provoca uma interessante quebra na rejeição automática da palavra “submissão”. Afinal, de alguma maneira, realmente nos submetemos constantemente a estruturas que organizam nossa vida.

O filme, entretanto, conduz essa reflexão para outra pergunta: reconhecer que todos nos submetemos a algo significa que uma mulher deveria deliberadamente escolher a submissão ao marido?

Essa capacidade de partir de uma afirmação que contém alguma verdade para revelar as consequências da conclusão construída a partir dela é uma das características que tornam Virtuosas mais inteligente do que uma simples sátira.

E sua inteligência não está somente nos diálogos.

Talvez uma das camadas mais interessantes do longa esteja justamente nas escolhas realizadas ao redor da história. Escalar Bruna Linzmeyer para ocupar posição central dentro de um universo que prega um modelo extremamente específico de feminino cria, por si só, uma contradição provocativa entre personagem, intérprete e discurso. O mesmo acontece quando outras figuras associadas publicamente a discursos muito diferentes daqueles defendidos pelas personagens aparecem naquele ambiente.

A locação também parece participar da piada. Utilizar uma casa associada às gravações de um programa marcado por uma representação bastante diferente de comportamento, desejo e relacionamentos, como espaço para um retiro destinado a fabricar “mulheres melhores” é uma ironia que dificilmente passa despercebida. Em Virtuosas, cenário e elenco não funcionam apenas como elementos técnicos: tornam-se parte do comentário.

É justamente por isso que o filme parece construído em camadas. Existe aquilo que as personagens dizem, aquilo que fazem quando estão sendo observadas e aquilo que revelam quando acreditam que ninguém está olhando.

A partir daí, a própria ideia de virtude começa a ser questionada.

Ser virtuosa significa seguir uma lista de comportamentos? Frequentar a igreja, rezar e defender publicamente determinados valores tornam alguém necessariamente uma pessoa virtuosa? O que acontece quando o discurso de amor, família e moralidade convive com violência, crueldade e ausência de empatia?

Virtuosas não parece interessado em atacar a fé propriamente dita, mas em observar o que acontece quando ela se transforma em instrumento de controle e em performance de superioridade moral. Existe uma diferença enorme entre acreditar e utilizar a crença como autorização para controlar a vida alheia – e o filme encontra seu horror exatamente nesse espaço.

Surge, então, outra pergunta incômoda: será que essas mulheres são realmente aquilo que ensinam outras mulheres a serem?

É nessa distância entre discurso e prática que o humor ácido de Virtuosas encontra o terror.

Mais do que assustar pelos mecanismos tradicionais do gênero, o filme incomoda pela possibilidade de reconhecermos seus discursos fora da sala de cinema. O horror está em perceber até onde alguém pode se sentir autorizado a ir quando acredita agir em nome de Deus, da família ou da moralidade. Quando uma convicção deixa de orientar a própria vida e passa a justificar aquilo que se impõe ao outro, as consequências podem ser muito mais assustadoras do que qualquer elemento sobrenatural.

No fim, talvez a provocação mais interessante esteja justamente no título.

Quem são, afinal, as virtuosas?

Você encontra Virtuosas nos cinemas a partir do dia 24 de Setembro .

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Precisamos falar sobre Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte

Às vezes, não me sinto à altura para falar sobre esse filme, porque ele me despertou tantos sentimentos e é composto de tantas camadas. Então, vamos às minhas impressões, aos meus pensamentos, baseados 100% nos meus sentimentos.

Eu não conhecia os filmes de Jane Schoenbrun. Fui ao cinema crua, sabendo apenas a sinopse. É claro que, quando saí do cinema, o filme imediatamente se tornou meu hiperfoco, e eu fui pesquisar tudo sobre ele.

Para começar, o filme é protagonizado por Hannah Einbinder, que vive Kris, e Gillian Anderson, que vive Billy Preston. Já acompanho o trabalho da Gillian há algum tempo. Assisti Sex Education, Hannibal e era fã de The Fall.

Mas, voltando a Acampamento Miasma…

Esse filme reúne muito do que eu cresci assistindo.

Primeiro, o slasher, que sempre foi o gênero de que mais gostei dentro do terror. Pânico, Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, Psicose, Halloween… E eu ainda estenderia isso para os anos 90 e 2000, colocando Cry Wolf, Premoniçãoe tantos outros.

Eu sei que muitos desses filmes possuem grandes problemáticas. Mas, às vezes, me sinto igual à Kris pequena diante da TV.

Porque eu também assistia a esses filmes pequena, dentro do meu imaginário inocente e infantil. E eu gostava da liberdade que eles retratavam. As festas, a diversão, os vários amigos juntos, o colegial, a faculdade. Para mim, enquanto criança, aquilo era todo um imaginário de como seria o mundo adulto.

E parecia legal.

Só que existe uma outra camada em Acampamento Miasma que também me levou de volta à infância e, principalmente, à adolescência: os filmes queers antigos, das décadas de 80, 90 e 2000.

Foi esse cinema que formou parte do meu imaginário. Que começou a despertar a minha sexualidade, enquanto mulher que estava se reconhecendo, se descobrindo.

E Schoenbrun ainda vai além e traz outro amor meu pelo cinema: a metalinguagem.

É um filme dentro de um filme. É uma forma de reverenciar o próprio cinema. O rolo de filme, o cinema enquanto espaço físico e, principalmente, uma roteirista e diretora que quer fazer um filme, quer contar a sua história, mas tem a sua liberdade criativa aparada por agentes e produtores que visam ao lucro e à repetição de fórmulas que já funcionaram antes.

Acampamento Miasma traz tantas referências que parece que cada cena foi pensada para conversar com alguma coisa.

A começar pela abertura.

A montagem é extremamente inteligente porque, em poucos minutos, contextualiza exatamente o universo sobre o qual Acampamento Miasma quer falar. Vemos uma franquia sendo explorada e saturada até perder o próprio público. É uma crítica muito clara ao que Kris chama de “propriedades intelectuais zumbis”: sequels, prequels, continuações, derivações, a exploração infinita de um mesmo universo.

Como vemos acontecer com Pânico, Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, Chucky, a franquia Halloween…

Quando Kris chega ao acampamento que se tornou a casa de Billy, o filme muda de atmosfera. E começam a aparecer outras referências.

Eu penso imediatamente em Carol.

A neve. A árvore de Natal. A luva. O clima que vai lentamente se criando entre aquelas duas mulheres.

Até chegar à preparação daquela noite romântica, ao som de Ordinary Love, da Sade.

Para mim, ali é o ápice dessas referências.

E os diálogos também são muito inteligentes. O filme começa a refletir sobre a própria maneira como filmes recebem um green light, sobre quem pode continuar contando histórias e quem a indústria decide deixar para trás.

Há um momento em que dizem para Kris que Billy jamais poderia voltar a protagonizar o filme simplesmente porque envelheceu.

E é impossível não pensar no que isso revela sobre o audiovisual e sobre a falta de protagonistas mulheres mais velhas, acima dos 50, dos 60 anos.

A trilha sonora é outro grande acerto.

Mas, afinal, como falar de um filme em que, para mim, tudo funciona?

Porque sinto que Acampamento Miasma vai além de criar reflexões e debates sobre a indústria cinematográfica.

Ele pega em um lugar muito mais íntimo.

Na nostalgia pelos filmes de terror. Na nostalgia pelos filmes queers. Na memória de tudo aquilo que eu assistia e que, sem perceber, estava formando o meu imaginário sobre o cinema, sobre a vida adulta, sobre liberdade, desejo e sobre quem eu viria a ser.

Talvez seja por isso que esse filme tenha me atravessado tanto.

Porque, em algum lugar, enquanto eu assistia a Acampamento Miasma, eu voltei a ser aquela criança diante da televisão.

E sinto que a Julia criança, sentada diante daquela tela, teria amado assistir a esse filme.

Você encontra Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte nos cinemas .

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Krishnamurti- A Revolução do Silêncio: Quando o Pensamento se cala e a Consciência escuta

Krishnamurti: A Revolução do Silêncio é um daqueles filmes que não se assiste; se vivencia. Dirigido por Françoise Ferraton, o documentário sobre o filósofo indiano Jiddu Krishnamurti convida o espectador a desacelerar, observar e, acima de tudo, silenciar. Saí do cinema em suspenso. O filme ecoa mais do que explica, e talvez esse seja o maior mérito: ele não busca converter, mas despertar.

A diretora utiliza imagens de arquivo, entrevistas e leituras de cadernos que vão de 1961 a 1984, ano do último diário do pensador. A estrutura é simples, quase transparente, porque o centro de tudo é a voz de Krishnamurti; uma voz calma, lúcida, que parece atravessar o tempo e sussurrar para o presente. Ele fala sobre o poder da observação, sobre como a consciência contém em si o sofrimento humano. Não apenas o sofrimento pessoal, mas o de toda a humanidade.

O filme começa com a fluidez de um rio. E é justamente nesse ritmo que Ferraton conduz a narrativa, um fluxo de imagens, pessoas, natureza. Aos poucos, a água dá lugar à terra, e a contemplação se torna espelho. Krishnamurti dizia que “ser livre é observar sem julgamento”, e o documentário parece filmar exatamente isso: o olhar que se liberta da pressa, da opinião, da necessidade de ter razão.

Mas é impossível sair ileso. A verdade, aqui, chega a ser sufocante. As imagens de imigrantes exaustos, famílias atravessando fronteiras em busca de abrigo, pessoas sem terra, sem casa, sem país, todas fugindo da guerra e da fome, dão corpo ao sofrimento coletivo de que Krishnamurti fala. É o retrato visível da consciência humana adoecida. O silêncio proposto por ele não é fuga, é enfrentamento. É o convite a enxergar o caos humano sem reagir com mais ruído, sem tentar curar o mundo antes de olhar para o que há dentro de nós.

O documentário percorre sua trajetória, da juventude na escola teosófica à vida na Inglaterra e depois na Califórnia, onde viveu seus últimos anos. Mas mais do que biografia, A Revolução do Silêncio é um estado de espírito. O filme não tenta explicar Krishnamurti; tenta sentir com ele.

“Você ouve a palavra ou o conteúdo da palavras?”

Entre as reflexões, uma frase permanece: “Compaixão é liberdade. E compaixão significa o fim do sofrimento.” É simples e devastador. Ser livre, afinal, é cessar a busca. É aceitar que talvez a verdadeira revolução seja interior, invisível e silenciosa.
Krishnamurti: A Revolução do Silêncio é um lembrete raro de que pensar nem sempre é entender;  às vezes é só respirar. E nesse respiro, algo muda.

Você encontra Krishnamurti no Festival do Rio .
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Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria: Maternidade, Colapso e o Teto que desaba sobre todas nós

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é um daqueles filmes que todo mundo precisa ver. Saí impactada da sessão no Festival do Rio e demorei dias para digerir tudo o que Mary Bronstein constrói aqui. É um filme que te atravessa; não por gritar, mas por expor com precisão e ironia o que significa ser mulher (e mãe) em colapso.

Mary Bronstein não filma apenas uma mulher à beira de um colapso, ela filma o colapso em si. Em Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, Rose Byrne é Linda, uma mãe, psicóloga e sobrevivente de um cotidiano que parece conspirar contra ela. O teto literalmente desaba, e a metáfora não poderia ser mais óbvia  e mais dolorosamente real. Depois que a água invade o apartamento, Linda é obrigada a se mudar para um motel com a filha doente. O marido está sempre ausente, o terapeuta parece mais interessado em provocá-la do que em ajudá-la, e o mundo inteiro parece lhe exigir equilíbrio quando tudo o que ela precisa é de cinco minutos de silêncio e solitude. A vida desmorona em câmera lenta  e, de alguma forma, ainda assim ela precisa dar conta de tudo.

“Deve ser legal fazer as coisas para se divertir.”

O filme, distribuído pela A24, é uma comédia sombria com cara de pesadelo doméstico. Mary Bronstein filma o caos com precisão: as câmeras próximas, os closes sufocantes, os enquadramentos que cortam o ar. A ausência visual da filha, que só aparece de corpo fragmentado, em pés, mãos e orelhas, é um gesto brilhante. A criança existe, mas o foco está na mãe, e isso muda tudo. Se víssemos a menina por completo, talvez esquecêssemos de olhar para Linda, e é justamente sobre isso que o filme fala: sobre a mulher que desaparece por trás da função de ser mãe.

“Isso é típico dela.”

Rose Byrne está monumental. Vencedora do Urso de Prata de Melhor Atriz em Berlim, ela equilibra exaustão, desespero e ironia com uma entrega que parece saída de um transe. Em cada expressão dela há culpa e resistência, vergonha e amor. Byrne não interpreta a “boa mãe”,  ela vive a mulher real, que quer amar, mas também quer fugir. Que ama o silêncio tanto quanto teme a solidão. O roteiro de Bronstein, ao mesmo tempo cruel e engraçado, tem um humor que nasce do absurdo da rotina. “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria” não é apenas um título provocativo — é um grito abafado de todas as mulheres que tentam sustentar uma casa, um trabalho, uma criança e a própria sanidade.

“Só quero que alguém me diga o que fazer.”

A diretora brinca com os gêneros: há drama, há comédia, há um leve tom de thriller psicológico. E em meio a tudo isso, surge o retrato cru da maternidade contemporânea; uma maternidade atravessada por culpa, vergonha e exaustão. A mãe perfeita é uma ficção tão perigosa quanto o teto que ameaça cair. O filme faz uma pergunta silenciosa: será que todas nasceram para ser mãe? E uma afirmação ainda mais incômoda: ser mulher já é, por si só, uma forma de resistência. No fim, Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria deixa uma sensação que fica no corpo. É impossível sair igual. Porque depois de acompanhar Linda, você nunca mais olha para a sua mãe — nem para si mesma — da mesma maneira.

Você encontra Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria no Festival do Rio .
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Elisa- O Véu da Culpa: O Crime, A Memória e O Peso do Perdão

Em Elisa – O Véu da Culpa, Leonardo Di Costanzo mergulha nas zonas mais turvas da mente humana, aquele lugar onde culpa e negação se confundem com sobrevivência. Inspirado em uma história real, o filme é uma coprodução entre Itália e Suíça e acompanha Elisa, uma mulher de 35 anos, presa há mais de uma década por um crime brutal: matar e queimar o corpo da própria irmã. Ela diz não se lembrar de nada. E talvez essa seja a única verdade possível.

O diretor constrói um drama psicológico que caminha lentamente, às vezes até demais, mas com propósito. Nada é gratuito. O silêncio aqui fala tanto quanto a fala, e o olhar de Elisa carrega mais perguntas do que respostas. Ao aceitar participar da pesquisa do renomado criminologista Alaoui, especialista em crimes familiares, ela se vê obrigada a revisitar o que mais teme: a própria memória.

Aos poucos, fragmentos do passado emergem. Uma infância marcada por rejeição; uma mãe que dizia não tê-la querido, um ambiente aparentemente estruturado, mas emocionalmente devastado. Elisa cresceu sem afeto, reprimindo o que sentia até que a raiva se confundiu com medo. E quando o medo transbordou, o crime aconteceu. Ela apenas não consegue encarar o reflexo do que foi capaz de fazer.

O filme propõe uma reflexão desconfortável: o que é, afinal, a culpa? Um fardo moral, um instinto de autoproteção, ou apenas o nome que damos àquilo que não sabemos como processar? Costanzo articula tudo isso através das sessões com Alaoui, que enxerga no criminoso não o monstro, mas o humano imperfeito, falho e ainda assim capaz de redenção.

Há um contraste forte entre os dois exemplos de perdão apresentados: o pai que visita a filha duas vezes por semana no centro penitenciário, e a mãe de outro caso, que perdeu o filho assassinado e permanece prisioneira da própria dor. Um perdoa o imperdoável; o outro não consegue sobreviver ao ódio. Entre eles, o espectador é colocado diante do espelho, e o filme pergunta: você perdoaria um criminoso?

A fotografia fria, quase clínica, reforça essa distância entre o que é lembrado e o que é reprimido. Elisa – O Véu da Culpa é um filme sobre memória e negação, mas também sobre humanidade, sobre o que resta quando o castigo já foi cumprido, mas o perdão ainda não chegou.

Costanzo entende que olhar para o passado é o verdadeiro cárcere. E talvez o perdão, dos outros e de si mesma, seja o único caminho possível para sair de lá.

Você encontra Elisa- O Veu da Culpa no Festival do Rio .

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