Há algo de muito bonito na maneira como Feito Pipa nos apresenta Gugu (Yuri Gomes). Antes mesmo que o mundo tente dizer quem ele deveria ser, o filme faz questão de mostrar quem ele é. Adesivos, colares, maquiagem, uma capa de super-herói nos ombros e uma bicicleta para levá-lo por aí. Gugu joga futebol, dança com os amigos, se enfeita e parece existir sem precisar escolher uma única versão de si mesmo. Há uma liberdade quase absoluta naquele menino. Quando a avó pergunta aonde ele vai, a resposta vem com a convicção que só uma criança usando uma capa poderia ter: “Tô indo salvar o mundo”.
Talvez seja justamente por conhecermos Gugu dessa forma que doa tanto acompanhar o que acontece depois.
Dirigido por Allan Deberton e roteirizado por André Araújo, Feito Pipa entende muito bem o universo da infância e, principalmente, a violência que existe quando os adultos começam a interferir nele. Gugu é criado pela avó, Dilma (Teca Pereira), desde a morte da mãe. Mais do que avó, ela é sua amiga, cúmplice e porto seguro. É ao lado dela que ele encontra espaço para simplesmente ser. Os dois se protegem mutuamente, embora, aos poucos, essa relação comece a se inverter.

Primeiro são pequenos esquecimentos. Dilma coloca o celular no micro-ondas, confunde coisas, perde informações que antes pareciam banais. “Eu tô bem, Gugu. Só um pouco esquecida”, diz. O que inicialmente ainda cabe dentro do olhar lúdico das crianças vai adquirindo outra dimensão. Gugu e os amigos tentam ajudar como sabem: inventam brincadeiras, fazem jogo da memória, esquentam água, criam até uma reza. Há uma pureza nessas tentativas justamente porque eles ainda não compreendem a verdadeira dimensão do que está por vir.
Mas Gugu compreende cedo demais.
Aos poucos, ele deixa de ser apenas neto e passa a assumir responsabilidades que jamais deveriam pertencer a uma criança. Precisa cuidar da casa, pagar a conta de luz, conseguir comida, estudar e cuidar da avó. Em um dos momentos mais dolorosos, chega a fingir ser a própria mãe para confortá-la. Até que Dilma esquece também dele.
É aí que Feito Pipa encontra uma de suas ideias mais dolorosas: Gugu vive um luto mesmo sem a morte da avó. Ele perde Dilma aos poucos, mas também começa a perder a vida que existia ao redor dela. A casa, a rotina, a bicicleta, os amigos e, acima de tudo, a liberdade de ser quem é. Se no começo ele parecia invencível até diante do preconceito, é porque havia um lugar para onde voltar. Quando esse lugar desaparece, sua armadura começa a desaparecer junto.
Sem condições de continuar vivendo com a avó, Gugu vai morar com o pai, Batista (Lázaro Ramos), e a mudança não representa apenas uma troca de casa. É como se ele atravessasse uma fronteira entre dois mundos. Se com Dilma havia acolhimento, com Batista há uma tentativa constante de correção.

O pai quer que Gugu corresponda àquilo que ele entende como um menino deve ser. Incentiva o futebol, tenta controlar sua aparência e chega a questioná-lo: “Você quer ser jogador de futebol ou palhaço?”. O mais interessante é que o próprio Batista expõe as contradições dessa masculinidade que tenta impor ao filho. Ele sequer gosta de futebol e gosta de cozinhar, atividade historicamente associada ao feminino dentro de casa, mas ainda assim parece precisar enquadrar Gugu em uma ideia rígida do que considera aceitável.
Em nenhum momento é necessário definir a sexualidade daquele menino. Gugu é uma criança. O que existe é uma criança descobrindo seus gostos e construindo sua identidade, enquanto os adultos ao redor projetam medos e preconceitos que ainda nem deveriam fazer parte de seu mundo.
E talvez seja essa uma das violências mais incômodas do filme. Batista não precisa saber quem Gugu será no futuro para temê-lo. Basta perceber no filho qualquer possibilidade de diferença. Ao tentar protegê-lo do julgamento alheio — ou, talvez, proteger a si próprio da vergonha que sente diante desse julgamento —, acaba se tornando justamente aquele que mais restringe sua liberdade.
A diferença entre o tratamento dado a Gugu e à filha torna isso ainda mais evidente. Para ela parece existir espaço para simplesmente ser; para ele, cada gesto pode se transformar em algo a ser corrigido.
A transformação também acontece visualmente. O menino que conhecemos coberto de acessórios, andando de bicicleta e carregando uma capa de super-herói começa a ser vestido à imagem do pai. Não é apenas uma mudança de roupa. Aos poucos, parece que estão apagando tudo aquilo que o filme fez questão de nos apresentar no início.
Por isso a bicicleta, a capa e principalmente a pipa carregam um significado tão bonito dentro da narrativa. São imagens de movimento e liberdade. A pipa só existe plenamente quando pode ganhar o céu, ainda que permaneça ligada a alguém por uma linha. Gugu também precisa desse espaço. Precisa de vínculos que não funcionem como amarras.
A fotografia árida do sertão cearense contrasta com a vivacidade desse protagonista e com uma trilha sonora que vai de “Time After Time”, de Cyndi Lauper, a Pabllo Vittar. Há cor, música e imaginação atravessando uma paisagem seca, como se o próprio Gugu insistisse em colorir um mundo que repetidamente tenta torná-lo menor.
Talvez por isso uma frase aparentemente simples carregue tanto peso quando ele diz: “Eu não tô triste, só tô com raiva”.Porque existe algo profundamente injusto em assistir a uma criança precisar encontrar palavras para sentimentos provocados por problemas que deveriam pertencer aos adultos.
Feito Pipa fala de preconceito, mas o que mais me atravessou foi perceber como esse preconceito consegue invadir justamente aquilo que deveria estar protegido dele: a infância. Gugu começa o filme acreditando que pode salvar o mundo. E talvez o mais doloroso seja perceber que, ao longo da história, são os adultos que deveriam estar preocupados em salvar o mundo para ele.
Selecionado para representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional, Feito Pipa terá sua primeira exibição no Rio de Janeiro hoje, 6 de outubro, durante o Festival do Rio. A sessão de gala acontece no Centro Cultural FGV, em Botafogo, dentro da Première Brasil, e contará com a presença do diretor Alan Deberton e do elenco, incluindo Yuri Gomes, Lázaro Ramos e Teca Pereira.
Depois da sessão desta noite, o longa terá outras cinco exibições no Festival do Rio, entre os dias 8 e 14 de outubro. Já a estreia nos cinemas de todo o Brasil está marcada para 5 de novembro.
Você encontra Feito Pipa no Festival do Rio.
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