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Anora

Desde que Sean Baker surgiu no cenário cinematográfico com obras marcantes como Tangerina (2015) e Projeto Florida (2017), seu nome tem sido sinônimo de autenticidade e experimentação no cinema independente. Com Anora, Baker não só consolida seu status como um dos criadores mais ousados de sua geração, mas também abre caminho para a temporada de prêmios, posicionando seu novo filme como um forte concorrente ao Oscar de 2025 – especialmente após ser coroado com a Palma de Ouro em Cannes 2024.

Baker, que assina tanto o roteiro quanto a direção, prova novamente ser um exímio observador da humanidade, com um talento único para explorar e humanizar personagens marginalizados. Sob o pretexto de uma comédia romântica, ele constrói em Anora um filme que transborda crítica social, nuances emocionais e uma sensibilidade estética que é ao mesmo tempo crua e deslumbrante. O resultado é uma história que desconstrói o conto de fadas empacotado em Hollywood e entrega algo infinitamente mais real, mais doloroso e mais memorável.

O roteiro é um dos pilares mais fortes do filme. Sean Baker consegue equilibrar com diálogos naturalistas, momentos de leveza cômica e reflexões sobre poder, classe social e trabalho sexual. A protagonista Ani ou Anora, como é chamada ao longo do filme ganha profundidade e camadas como raramente se vê em personagens femininas. Interpretada por Mikey Madison em sua performance mais impactante até agora, Ani é uma protagonista complexa em todos os sentidos. Vivendo como trabalhadora do sexo no Brooklyn, Ani encara os desafios diários de sua rotina com uma mistura de pragmatismo e cuidado: fazendo piadas, comendo no meio do expediente e conversando com amigas, enquanto navega por um ambiente cercado de preconceitos.

A genialidade do roteiro está em construir sua trajetória sem didatismos ou paternalismos. Ani, com sua personalidade forte e vulnerável, não é apresentada como vítima absoluta nem como heroína, mas como uma mulher cuja humanidade é mostrada em cada cena.  Madison entrega uma interpretação recheada de nuances, mesclando força e ingenuidade. É impossível não se conectar com sua Ani, uma personagem cujas escolhas imprudentes têm consequências trágicas, mas que nunca perde sua dignidade. A relação da personagem com Ivan (Mark Eydelshteyn), o filho de um oligarca russo, revela a disparidade crua entre aqueles que sofrem com a desigualdade social e aqueles que permanecem acima de quaisquer consequências.

Sean Baker não se contenta em contar uma história; ele transforma Anora em uma experiência cinematográfica quase tátil. A direção é precisa, criativa e permeada por uma energia que captura tanto o caos quanto a esperança de sua narrativa. Baker sabe perfeitamente quando desacelerar para explorar os momentos mais íntimos – entre Ani e suas amigas ou mesmo suas interações mais vulneráveis com Ivan – e quando escalar a trama para o puro absurdo.

No segundo ato, quando a família de Ivan entra na história e uma comitiva de capangas chega ao Brooklyn para anular o casamento do casal, Baker eleva a comédia ao limite do tragicômico. O caos instaurado nas situações – tragicômicas e absurdas – que se seguem é um triunfo criativo, ao mesmo tempo em que serve como veículo para uma crítica contundente às dinâmicas de poder. Baker expõe o ridículo dessas situações, mas nunca de forma gratuita, usando o exagero como forma de intensificar o impacto emocional e crítico do longa.

A fotografia  é, simplesmente, espetacular. O filme transita entre momentos de intensa intimidade e sequências grandiosas embaladas pela vibrante estética neon do Brooklyn. A fotografia captura a pulsação da cidade: é ao mesmo tempo elétrica e sufocante, delicada e brutal.  Sean Baker sabe como usar a paleta de cores saturada para amplificar a viagem emocional de sua protagonista – seja nos tons quentes que iluminam uma noitada de sonhos com Ivan ou os tons frios e desolados que refletem as duras investidas do mundo ao redor de Ani.

A trilha sonora também brilha como um elemento-chave. Sua força vai além de complementar a narrativa; ela é uma extensão dos eventos do filme, capaz de carregar peso dramático em cenas silenciosas e intensificar o ritmo das sequências mais caóticas. A escolha precisa de cada faixa, como TATU na trilha sonora é um golpe de mestre: ao mesmo tempo nostálgica e provocativa, sua presença musical ressoa de forma poderosa, contribuindo para um ambiente que mistura o clássico e o moderno, o leve e o pesado.

Embora Anora seja vendido como uma comédia romântica – e, em determinados momentos, flerte com esse tom –, é na desconstrução do gênero que a obra realmente brilha. Baker utiliza as convenções do conto de fadas moderno para expor a disparidade de classes e as injustiças intrínsecas entre aqueles que têm poder e aqueles que vivem à margem.

Ivan, o filho de uma família rica que age com desdém sobre suas ações, é o completo oposto de Ani, que precisa lidar com todas as consequências de suas escolhas. Enquanto ele retorna para a Rússia sem nenhuma marca de sua experiência, ela é deixada para recolher os pedaços da vida que tentou construir. O filme não dá respostas fáceis nem oferece conforto. O final é desconfortável, porém autêntico, refletindo de forma honesta as desigualdades de um mundo onde poder e privilégio ditam as regras.

Anora não é apenas um grande filme; é uma obra que reafirma o talento de Sean Baker. Em um ano competitivo, é difícil imaginar que o filme não continue ganhando atenção na temporada de prêmios. É um filme que transcende os rótulos, ao mesmo tempo acessível e desafiador, comédia e drama, deslumbrante e desconfortável.

Você encontra Anora a partir do dia 23 de Janeiro nos Cinemas.

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Até o próximo texto.

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Conclave

Conclave, a mais recente adaptação do renomado livro de Robert Harris, sob a direção de Edward Berger, e que teve passagem no Festival do Rio de 2024 como uma das grandes surpresas e logo se destacou como um forte concorrente em premiações, incluindo o Globo de Ouro. Com um elenco de peso liderado por Ralph Fiennes e Isabella Rossellini, o filme nos transporta para os segredos e intrigas que permeiam o processo de escolha de um novo papa, um evento que ocorre nas sombras da Capela Sistina, entre cédulas queimadas e fumaças brancas.

“O trono da Santa Fe está vago”

A trama se desenrola após a morte inesperada de um amado papa, quando o Cardeal Thomas Lawrence (Fiennes) é incumbido da imensa responsabilidade de conduzir o conclave, uma tradição de isolamento e sigilo que remonta a oito séculos. Em um ambiente repleto de pressões internas, Lawrence rapidamente percebe que não está apenas lidando com a escolha de um novo líder espiritual, mas se vê imerso em um labirinto de conspirações e segredos que podem abalar os alicerces da Igreja Católica.

A direção de Edward Berger captura a tensão palpável nos corredores do Vaticano, do silêncio reverente da Capela Sistina aos sussurros estratégicos de líderes ambiciosos. O roteiro de Peter Straughan equilibra diálogos instigantes com momentos de reflexão sobre o papel da Igreja na contemporaneidade.

“40 anos sem papa italiano”

Um dos pontos fortes de “Conclave” é, sem dúvida, sua direção de arte e fotografia. A atmosfera única do Vaticano é retratada com riqueza de detalhes, criando um cenário que não apenas serve como pano de fundo, mas como um personagem à parte que influencia o desenrolar da história. Por outro lado, o filme também provoca controvérsias. A reação do bispo norte-americano Robert Barron, que pediu boicote ao longa, ilustra o impacto que Conclave pode ter sobre o público católico. Sua crítica, que destaca uma visão negativa da hierarquia da Igreja, aponta para um nervo exposto: as dinâmicas internas da instituição. No entanto, é exatamente essa divisão interna entre progressistas e tradicionalistas, que o filme aborda com ousadia, que faz da narrativa um tema relevante e pertinente.

Conclave não se furta a discutir temas contemporâneos como o papel das mulheres na Igreja e as mudanças sociais que estão em jogo. Ao colocar seus personagens em situações que desafiam a ordem tradicional, o filme convida o espectador a refletir sobre a necessidade de adaptação e transformação em uma instituição histórica. Embora o filme abrace uma perspectiva crítica, ele também é um convite ao diálogo sobre estes temas, uma jornada que esmiúça o ethos da Igreja Católica contemporânea. As atuações de Fiennes e Rossellini são potentes, trazendo profundidade e complexidade a personagens que navegam neste mar de ambição e fé.

Em suma, Conclave é uma obra cinematográfica audaciosa e visualmente impressionante que, além de contar uma história intrigante, provoca reflexões sobre questões contemporâneas e a essência do poder.

Você encontra Conclave a partir do dia 23 de Janeiro nos Cinemas.

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A Real Pain

A Real Pain é um marcante longa-metragem roteirizado, dirigido, produzido e estrelado por Jesse Eisenberg, que teve passagem pelo Festival do Rio 2024. Esta comédia dramática nos proporciona uma experiência emocional profunda ao abordar temas como o luto, a memória e as complexidades das gerações de imigrantes. O filme acompanha dois primos que saem dos Estados Unidos para uma viagem à Polônia, na tentativa de se reconectarem com suas raízes judaicas.

Kieran Culkin, cuja atuação já lhe rendeu um Globo de Ouro recentemente, rouba a cena com uma performance que é tanto hilária quanto comovente. Se em Succession seu personagem Roman Roy era uma figura cheia de ironia e tensão, aqui Culkin entrega algo mais  multidimensional. Sua expressão está sempre viva, oscilando rapidamente entre ironia, comédia e hostilidade brincalhona, conforme ele encapsula a complexidade da dor e do humor humano.

Eisenberg permite que o filme seja frequentemente dominado pela atuação de Culkin. Há muitos closes em Culkin, revelando lentamente as camadas emocionais ocultas, dando-nos momentos em que parece possível enxergar seu futuro eu mais velho e o seu passado/presente marcado por dor, uma figura atemporal que poderia ter qualquer idade. Esse toque de direção revela a profundidade da dor e da vivência autêntica que permeia todo o filme.

Mas o que faz de A Real Pain uma experiência única é a imersão no “entre” — a extensa janela de autodescoberta que habita o silêncio do abrir e fechar das cortinas de um espetáculo. Através de uma viagem repleta de memórias e paisagens arquitetônicas da Polônia, o reconhecimento histórico e pessoal se torna palpável à medida que os primos exploram desde campo de concentração até monumentos de celebração, transformando o tour turístico em uma jornada de reverência e contemplação.

Em meio às gargalhadas e às lágrimas, o filme é, de fato, uma ode às dores da alma, mostrando-nos como rir em meio aos trágicos momentos da vida adulta. Eisenberg nos desafia a ver a solidão não apenas como isolamento, mas como uma oportunidade para a solitude e a percepção do luto por uma nova ótica.  Ele utiliza sua falta de tato social e humor peculiar para oferecer uma narrativa cativante sobre dois primos que vivem momentos distintos, mas encontram um terreno comum na busca por suas raízes.

A Real Pain convida o espectador a embarcar em uma narrativa emocional que é menos sobre como tudo termina, mas sobre a jornada em si – o caminho entre o começo e o fim, onde a vida realmente acontece. O filme, com seu caráter individual e identidade distintiva, transforma as perdas da vida em comédia e contemplação,  trazendo à tona a beleza na dor e no renascimento. Afinal, somos todos sobreviventes porque viver é sobreviver a verdadeira dor.

Você encontra A Verdadeira Dor a partir do dia 30 de Janeiro nos Cinemas.

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Maria – A Resiliente Voz da Tragédia e a Força de Angelina Jolie

O fascinante mundo da ópera e a trágica vida de sua maior estrela, Maria Callas, ganham vida no drama biográfico Maria, dirigido por Pablo Larraín e roteirizado por Steven Knight. Conhecido por trazer à grande tela histórias complexas de mulheres notáveis, como visto em Jackie e Spencer, Larraín oferece, mais uma vez, uma narrativa envolvente ao lado do roteirista Steven Knight. A interpretação de Angelina Jolie como protagonista promete ser uma  grande atuação para o ano, potencialmente direcionada a uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz.

Maria se concentra na última semana de vida da lendária soprano greco-americana, cuja carreira foi marcada por uma técnica de bel canto impecável, um poderoso alcance vocal e interpretações psicológicas profundas. Através da delicada direção de Larraín, acompanhamos Callas não apenas em seu ofício, mas também nos delírios causados pelo abuso de Mandrax, que combinados com uma vida solitária contrastam intensamente com seu amor pela adoração do público.

“Não estou com fome. Venho aos restaurantes para ser adorada.”

A trama mergulha em questões íntimas, revelando os efeitos devastadores da solidão de Callas e seu amor complexo pelo magnata Aristotle Onassis. A atuação de Jolie é destacada não apenas pelos treinos extensivos que a atriz passou para capturar a postura, respiração, sotaque e o próprio canto de Callas, mas também pela sua habilidade em transmitir a angústia e vulnerabilidade da cantora nos seus momentos mais debilitados. A performance de Jolie é sutil e poderosa.

O filme se diferencia pela sua construção visual. A fotografia e montagem são combinadas, alternando entre filmagens em preto e branco e cenas coloridas. Os closes de Maria e os vídeos históricos de suas apresentações trazem uma autenticidade que mergulha o espectador na realidade daquele tempo. As cenas de ópera são meticulosamente recriadas, transportando o público aos memoráveis palcos de Londres, Milão, e Paris. É importante notar também as performances de Haluk Bilginer e Valeria Golino, que, como personagens secundários, acrescentam camadas adicionais ao drama da vida real de Callas. Eles complementam a jornada emocional de Maria.

Maria vai além de apenas uma simples biografia; é um retrato sensível de uma mulher cuja vida foi tão cheia de glórias quanto de dores. Pablo Larraín e Angelina Jolie criaram uma obra que não só honra a memória de Maria Callas, mas também evidencia a complexidade de seu legado.

Com a temporada de prêmios se aproximando, é justo afirmar que Maria posiciona-se como um concorrente, especialmente nas categorias de Melhor Atriz e quem sabe Melhor Direção. A performance de Jolie já garantiu uma indicação ao Globo de Ouro. Em suma, “Maria” é um filme que oferece uma visão rara e intimista de uma das vozes mais icônicas da ópera mundial e apresenta um trabalho cinematográfico que é, ao mesmo tempo, visualmente deslumbrante e emocionalmente impactante.

Você encontra Maria a partir do dia 16 de Janeiro nos Cinemas.

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Bolero, o Mistério de Ravel

Bolero, O Mistério de Ravel , dirigido por Anne Fontaine, foi selecionado para a 15ª edição do Festival Varilux de Cinema Francês 2024. O filme exibe uma produção impecável, com um elenco adequado, figurinos e cenários de época meticulosamente recriados, e diálogos claros que elucidam a trama. No entanto, essa precisão e segurança podem ser vistas como uma abordagem excessivamente resumida e talvez asfixiante em termos de potencial narrativo.

“Nada é mais concreto do que a música.”

Bolero se passa em 1928, durante os vibrantes anos loucos de Paris, quando a dançarina Ida Rubinstein encomenda a Maurice Ravel uma composição para seu próximo balé. Enfrentando uma crise de inspiração, o filme nos leva a revisitar os capítulos da vida de Ravel, interpretado competentemente por Raphaël Personnaz, incluindo seus desafios precoces, as cicatrizes da Grande Guerra e um amor não correspondido por sua musa Misia Sert. Ravel, uma figura complexa e cartesiana, é retratado como um homem notavelmente sensível devotado à música – ao ponto de declarar que nunca se casou porque estava casado com a música.

“Acho que me perdi em minha própria música.”

Apesar da ambientação impecável e das boas intenções narrativas, o filme muitas vezes sucumbe a uma abordagem que não explora plenamente o potencial emocional e psicológico de seus personagens. Há vários filmes possíveis dentro deste, cada um mais provocativo que o outro, mas todos parecem asfixiados em suas possibilidades únicas por essa abordagem resumida. A repressão sexual de Ravel, por exemplo, é subutilizada; sua falta de impulso carnal é reduzida a gestos de afeto não correspondidos ou a incapacidade de expressar seus verdadeiros sentimentos. Essa explosão de possibilidade é tratada apenas como um pano de fundo, não alcançando o clímax emocional necessário.

O filme também deixa de explorar profundamente a percepção intelectual e emocional de Ravel em relação ao trabalho artístico da bailarina, evidenciando uma defasagem perceptiva entre ele e a dança meramente de um ponto de vista intelectual. Tais nuances estão presentes e disponíveis para o olhar atento, mas a direção de Fontaine, embora competente, não lhes dedica a atenção devida, preferindo manter uma narrativa segura e linear em um “safe zone”.

“A cada 15 minutos, alguém no mundo está tocando Bolero de Ravel.”

Bolero é um filme agradável, que sabe seduzir o espectador com sua mistura de leveza e beleza cativantes. No entanto, ele se revela uma obra sem grandes sustos narrativos, mas também sem grandes provocativas. Anne Fontaine, ao construir a biografia de Maurice Ravel, nos entrega um trabalho visualmente esplêndido, mas que parece se contentar em permanecer na superfície do drama do personagem, em vez de mergulhar nas profundezas de suas complexidades emocionais.

Distribuído no Brasil pela Mares Filmes e com classificação indicativa livre, o filme, apesar de suas sofisticadas pretensões e estudo meticuloso de época, poderia ter sido um estudo mais íntimo e penetrante de Ravel.

Você encontra Bolero no Festival Varilux 2024.

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Retrato de um Certo Oriente

Retrato de um Certo Oriente é uma adaptação do premiado romance Relato de um Certo Oriente de Milton Hatoum. A trama inicia-se em 1949, quando os irmãos libaneses católicos Emilie e Emir abandonam um Líbano em iminência de guerra, embarcando em direção ao desconhecido Brasil. Durante a travessia, Emilie se apaixona pelo comerciante muçulmano Omar, despertando o ciúme incontrolável de Emir, que culpa os muçulmanos pela morte trágica de seus pais. A viagem torna-se ainda mais dramática quando uma briga entre Emir e Omar resulta em um tiro acidental que fere gravemente Emir. Emilie, desesperada, busca ajuda em uma aldeia indígena na selva amazônica para salvar a vida de seu irmão. Recuperado, eles continuam para Manaus, onde as escolhas de Emilie levam a consequências trágicas.

Filmado em um impressionante preto e branco, a cinematografia de Pierre de Kerchove é uma das maiores forças do filme. Cada cena é cuidadosamente elaborada. Os planos fechados trazem uma intimidade poderosa, permitindo que o público se conecte profundamente com as emoções dos personagens. Em diversos momentos, a fotografia remete às obras de Sebastião Salgado, transportando o espectador para um “quadro amazônico” de rara beleza.

Marcelo Gomes, cuja filmografia inclui obras como Cinema, Aspirinas e Urubus e Viajo porque preciso, Volto porque te amo, demonstra novamente sua habilidade em traduzir histórias complexas e humanas para o cinema. A adaptação de “Relato de um Certo Oriente” é tratada com delicada sensibilidade, balanceando a fidelidade ao texto literário com uma abordagem cinematográfica inventiva. Gomes consegue transformar as memórias e fluxos de consciência do romance em uma narrativa visualmente rica e emocionalmente carregada.

A trilha sonora sutil e evocativa complementa perfeitamente a estética do filme, onde muitas vezes o som é de uma natureza presente. Em vez de dominar a narrativa, a música trabalha em harmoniosa sinergia com a cinematografia, sublinhando momentos de tensão e introspecção sem jamais distrair o público da história central.

Além da fotografia, as performances são outro pilar de Retrato de um Certo Oriente. Wafa’a Celine Halawi oferece uma Emilie multifacetada e profunda, enquanto Zakaria Kaakour e Charbel Kamel trazem intensidade e autenticidade aos seus papéis. A participação de Rosa Peixoto e sua família, emprestando rituais e costumes indígenas, adiciona um valioso contraste cultural à trama. A narrativa aborda questões de memória, tradição e identidade de maneira que ressoa profundamente.

Retrato de um Certo Oriente é um estudo íntimo sobre memória, paixão e preconceito, imergido no contexto da imigração libanesa na Amazônia brasileira. A obra é uma homenagem calorosa à complexidade emocional e cultural do romance de Milton Hatoum, traduzida para a tela com sublime maestria por Marcelo Gomes.

Marcelo Gomes entrega um épico íntimo que permanece fiel ao espírito do romance original, ao mesmo tempo em que cria algo profundamente novo e admirável.

Você encontra Retrato de Um Certo Oriente a partir do dia 21 de Novembro nos Cinemas.

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Avenida Beira Mar

Avenida Beira-Mar, o mais novo longa-metragem de Maju de Paiva e Bernardo Florin, é uma obra que ressignifica o gênero coming of age através de um olhar autêntico e sensível sobre a adolescência, as relações familiares e a busca de identidade. O filme chega com um peso significativo, apoiado pelo Selo ELAS da Elo Studios, que visa promover a equidade de gênero no audiovisual.

A trama gira em torno de Mika, uma jovem que busca sua identidade em meio à rigidez e incompreensão de seus pais, contrastando com sua ressignificação do uso das roupas deixadas pela irmã mais velha, que já não reside mais na mesma casa. Em uma reviravolta emocional, Mika conhece Rebeca, uma nova amizade que transforma ambas as vidas.

A amizade entre as duas meninas, contra todas as previsões, cria a força motriz da narrativa. Ao invés do previsível abismo causado pelas diferenças, elas constroem um vínculo de cumplicidade e apoio mútuo. No entanto, a visão pequena e preconceituosa dos adultos em relação a essa amizade desencadeia uma série de eventos dramáticos, transformando a tranquila Avenida Beira-Mar em um palco de confrontos.

“A praia é de todo mundo.”

Maju de Paiva e Bernardo Florin demonstram uma direção notável, focando-se em atmosferas intimistas e desenvolvendo personagens com profundidade. Tal competência foi reconhecida no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara, onde eles ganharam o prêmio de Melhor Direção.

O roteiro que já havia tido reconhecimento no FRAPA 2018 e outros festivais, agrega valor ao filme. Os diálogos são fortes e genuínos ao mesmo tempo, ao mostrar a contradição daqueles que deveriam se portar como rede de apoio, como proteção, mas acabam por piorar diante de falas e comportamentos. E as situações dramáticas reverberam a essência do cotidiano, mas com um toque que convida à reflexões.

“Vocês são muito crianças ainda. Vocês nem sabe o que vocês são.”

Avenida Beira-Mar não se destaca apenas pela sua narrativa, mas também pelo movimento que representa. O Prêmio Selo ELAS Cabíria Telecine 2020, o destaque no Maguey Award e a participação no Festival Des 3 Continents, em Nantes, corroboram a importância e a relevância do filme no cenário internacional.

Maju e Bernardo explicam que o projeto nasce do desejo de apresentar novos protagonistas pertencentes ao nosso universo, em vez da imagem dourada da infância frequentemente retratada em filmes estadunidenses. A trajetória de Mika, Rebeca e Marta reflete nossa busca por pertencimento e compreensão mútua, celebrando o que temos em comum.

Avenida Beira-Mar é um filme que não só navega pelas águas turbulentas da adolescência, mas também desafia narrativas tradicionalmente plastificadas ao trazer à tona histórias que precisam ser contadas com empatia. Nos recordando do poder do cinema como uma ferramenta de identificação e conexão, oferecendo um espelho para experiências que, embora individuais, são profundamente humanas.

Com uma direção promissora, um roteiro sensível e uma mensagem poderosa, o longa-metragem  é essencial para todos, todas e todes.

Você encontra Avenida Beira-Mar a partir do dia 21 de Novembro nos Cinemas.

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A Substância

Quem assistir A Substância, o novo filme de Demi Moore, certamente não o esquecerá. Ambientado na vibrante cidade de Los Angeles, o filme abre com um plano da icônica Calçada da Fama de Hollywood, onde uma nova estrela está sendo instalada. Essa estrela pertence à atriz Elisabeth Sparkle, protagonizada por Moore, e logo é vista desintegrando-se, rachada e pisoteada — um prenúncio simbólico dos temas centrais da narrativa: juventude, beleza e pertencimento.

Elisabeth, com mais de 50 anos e recém-demitida de um programa de TV devido à baixa audiência, recorre a medidas extremas para recriar uma versão perfeita de si mesma. O que começa como um filme feminista, abordando preconceito etário e padrões de beleza, rapidamente se transforma em algo distintamente inesquecível e profundo. Sparkle recorre a um misterioso processo de “clonagem caseira”, com a ajuda de uma droga ilícita, resultando no nascimento de Sue, uma jovem e alegre sósia (interpretada por Margaret Qualley) que literalmente emerge de sua coluna vertebral.

Esse ritual de rejuvenescimento, repetido a cada sete dias, está no cerne da crítica do filme. A condição de troca cíclica de corpos revela as consequências devastadoras e enfatiza a transitoriedade da juventude e da beleza. Elisabeth é apresentada como a “matriz,” vivendo sob a constante pressão do descontentamento corporal à medida que envelhece, metaforicamente ilustrando que até a rainha má já foi uma princesa, assombrada pelo reflexo que lhe lembra do tempo que roubou sua juventude.

À medida que Elisabeth recorre à sua versão jovem para alcançar seus objetivos, inicialmente consegue o que sempre desejou. No entanto, a narrativa leva um rumo sombrio e visceral quando começamos a ver os efeitos adversos de suas escolhas. A Substância não economiza em elementos de horror corporal, repleto de sangue e momentos profundamente inquietantes. Um marco para fãs de Julia Ducournau, fortemente conhecida pelos filmes de horror corporal que vão de curtas a longas.

A atuação de Demi Moore, como uma estrela em declínio, é desprovida de glamour. Ela abraça a crueza e a vulnerabilidade do papel, destacando a beleza deteriorada de Elisabeth Sparkle. “De certa forma, eu senti que queria fazer isso”, ela explica. “Parte do que tornou interessante foi ir a um lugar tão cru e vulnerável, para realmente me desprender. E foi bastante libertador em muitos aspectos.”

A narrativa também desconstrói expectativas associadas a contos de fadas, onde a conclusão do filme integra uma linha impactante de Dennis Quaid, “meninas bonitas devem sempre sorrir,” sublinhando as pressões persistentes em torno da feminilidade e dos padrões de beleza. Esse diálogo, uma crítica ao idealismo dos contos de princesas, reforça a brutalidade da realidade abordada no filme.

Visualmente, a diretora Coralie Fargeat cria um universo que mistura glamour, medo e asco. Sua direção, somada às performances estelares de Moore e Qualley, é vital para a eficácia do filme como uma alegoria sobre os perigos da obsessão pela perfeição física. A montagem do filme, com transições secas e cruas, mantém o espectador imerso na brutalidade da narrativa.

“O ponto crítico está na sensação contínua de que o tempo está se esgotando,” comenta Fargeat. Esse sentimento de urgência é tangível ao longo de todo o filme, enfatizando a efemeridade da beleza e a pressão impiedosa para mantê-la.

A estreia de A Substância no Festival de Cannes gerou muitos comentários, e o filme rapidamente se tornou um dos mais discutidos da edição de 2024. Atualmente, está nos cinemas e chegará ao catálogo da MUBI em 31 de outubro, oferecendo uma narrativa perturbadora e relevante.

A exploração do “body horror” no filme não é meramente para causar choque, mas para refletir as barreiras físicas, corporais e emocionais que as pessoas atravessam para alcançar os padrões de beleza. Em uma era de procedimentos estéticos sem fim, o filme apresenta uma perspectiva moderna, crítica e, em muitos momentos, surrealista sobre a obsessão pela juventude e pela aparência.

A Substância é um filme que provoca reflexão, desconforto e admiração, não apenas desafia os limites do horror convencional, mas também oferece uma crítica impactante à obsessão com a juventude e a beleza.

Você encontra A Substância nos cinemas e a partir do dia 31 de Outubro, na Mubi.

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O Último Pub: Um Último Brinde ao Realismo Social de Ken Loach

Ken Loach, um dos grandes mestres do realismo social britânico, oferece com O Último Pub uma narrativa que une o estilo inconfundível do cineasta com temas profundamente relevantes. Contudo, a abordagem, desta vez, é um tanto didática e previsível, o que dilui parte do impacto emocional que Loach busca alcançar.

Ambientado em um vilarejo decadente no nordeste da Inglaterra, o filme segue TJ Ballantyne (Dave Turner), o proprietário de um pub que é o último refúgio de uma comunidade devastada pelo fechamento das minas de carvão. A chegada de refugiados sírios, incluindo a jovem Yara (Ebla Mari), agita a rotina do local e expõe os preconceitos e tensões latentes na população.

O roteiro de Paul Laverty, colaborador frequente de Loach, não se esquiva do humor ácido, mas é predominantemente sério e ponderado. Laverty passa suas mensagens de forma clara e direta, quase didática, fazendo com que os temas do filme sejam transmitidos sem intermediários. Isso, no entanto, acaba por criar uma sensação de que estamos sendo conduzidos por uma narrativa com um propósito predefinido, deixando pouco espaço para a sutileza.

Dave Turner traz uma performance ancorada e melancólica a TJ, transmitindo a essência de um homem dividido entre seu compromisso com os habituais clientes do pub, muitos com visões xenofóbicas, e seu desejo de ajudar os refugiados. Ebla Mari, por outro lado, embute em Yara uma força tranquila e uma determinação, apesar de algumas falas excessivamente expositivas.

O filme não se esquiva das suas intenções. Quando TJ fala sobre a injustiça e como frequentemente culpamos quem está abaixo de nós na hierarquia social, ou quando Yara explica seu exílio de forma didática.

Os coadjuvantes, como Charlie (Trevor Fox), o preconceituoso local, e Tania (Debbie Honeywood), a idealista da vila, ajudam a povoar o cenário com figuras credíveis, que refletem o realismo naturalista que Loach sempre perseguiu. Essa forte atuação do elenco, juntamente com a fotografia naturalista de Robbie Ryan, que capta de forma visceral a dureza da vida no vilarejo, contrapõem-se à simplicidade do roteiro.

“É preciso força para fazer algo bonito.”

A estrutura do filme, porém, tende a seguir caminhos previsíveis, com mortes e interações supostamente projetadas para arrancar lágrimas. Esses mecanismos narrativos, embora efetivos para provocar reações emocionais, não se sentem genuínos, dando ao público a sensação de que suas emoções estão sendo manipuladas.

O Último Pub é, sem dúvida, uma obra carregada de boas intenções e mensagens importantes, especialmente em um contexto global onde os fluxos migratórios e os preconceitos viram pautas constantes. Ainda assim, a pregação explícita e a falta de nuances na narrativa podem afastar parte da audiência que busca uma conexão emocional mais autêntica e uma experiência cinematográfica menos direcionada.

“Isso não é caridade, é solidariedade.”

Ken Loach, em seu suposto último filme, oferece um brinde ao seu legado de realismo social, mas talvez um brinde que deixa um gosto um tanto agridoce na boca. O Último Pub nos lembra do poder das pequenas gentilezas e da solidariedade em tempos de crise, mas o faz de uma maneira que, por vezes, sacrifica a autenticidade em favor do didatismo.

Você encontra O Último Pub no Now.

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Ainda Estou Aqui

Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, possui uma combinação meticulosa de potentes atuações, narrativa e cinematografia diferenciadsa, elementos que tornam este filme uma experiência inesquecível.

Fernanda Torres e Selton Mello desempenham um papel crucial na transmissão dos sentimentos de seus personagens, criando uma ligação visceral entre a audiência e a Família Paiva. Através de atuações autênticas e comoventes, os atores conseguem evocar uma gama de emoções complexas, desde a desesperança até a determinação incansável. Esse feito, no entanto, não é atingido unicamente através de suas performances, mas pela escolha perfeita dos atores que enriquecem o roteiro já robusto de Murilo Hauser e Heitor Lorega.

Walter Salles, conhecido por seu trabalho em “Central do Brasil” (1998), emprega sua habilidade em criar um tom intimista e familiar que permeia toda a narrativa. A fotografia e montagem são pontos altos no filme, destacando-se no cenário nacional por sua originalidade e profundidade estética. Cada enquadramento e cada movimento de câmera são calculados para transportar o público diretamente para os anos 1970, uma época marcada pelo endurecimento da ditadura militar no Brasil.

Baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, o roteiro de Ainda Estou Aqui oferece uma trama densa e emocionalmente carregada, que retrata a luta de Eunice (Fernanda Torres) para descobrir o paradeiro de seu marido, Rubens Paiva (Selton Mello), um engenheiro e ex-deputado levado de casa e nunca mais entregue. A narrativa não é apenas um relato histórico, mas uma exploração das repercussões emocionais e psicológicas da ditadura, que continua a ressoar nas memórias até os dias de hoje.

Os aspectos técnicos do filme são impecáveis, com uma fotografia que captura a essência da época e uma montagem que permite ao filme manter um ritmo perfeito, junto a trilha sonora marcada por Gal, Caetano, Mutantes, dentre outros.

A universalidade da história é uma das suas maiores virtudes. O filme transcende a especificidade do contexto brasileiro da ditadura militar para abordar temas de busca pela verdade, justiça e resiliência frente à opressão. A coprodução com a França e a linguagem em português não impedem que a trama se comunique com públicos internacionais, fazendo de Ainda Estou Aqui um exemplo forte de uma produção brasileira que tem potencial para dialogar com diferentes culturas e contextos.

Ainda Estou Aqui  é uma experiência emocional que convoca o público a refletir sobre um período sombrio da história, ainda tão próximo de nossa realidade. O choque proporcionado por eventos reais e tangíveis proporciona um nível de engajamento emocional raro, deixando o público profundamente tocado e contemplativo.

Em suma, Ainda Estou Aqui se destaca como uma obra-prima do cinema nacional, oferecendo uma combinação de atuações sublimes, direção sensível e uma narrativa histórica que mantém sua relevância e impacto emocional.

Você encontra Ainda Estou Aqui nos principais cinemas do Brasil a partir do dia 7 de Novembro.

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Até o próximo texto.