Virtuosas transforma a busca pela mulher perfeita em um terror assustadoramente próximo da realidade
Há algo particularmente perturbador em um filme de terror quando aquilo que deveria provocar estranhamento parece familiar demais. Em Virtuosas, novo longa de Cíntia Domit Bittar, o horror nasce justamente dessa proximidade. Ao mergulhar no universo das trad wives, as chamadas esposas tradicionais que ganharam força nas redes sociais ao defender uma feminilidade pautada pela submissão, pelo casamento, pela maternidade e por determinadas interpretações dos preceitos bíblicos, o filme constrói uma sátira ácida sobre mulheres que procuram alcançar um ideal de perfeição que talvez sequer exista.
Virtuosas acompanha três mulheres selecionadas para participar de um retiro exclusivo comandado pela admirável e inspiradora Virgínia Heinzel, vivida por Bruna Linzmeyer. A promessa é tentadora para quem acredita naquele universo: uma imersão capaz de ensiná-las a se tornarem mulheres, esposas e mães melhores. O que começa como uma experiência de aperfeiçoamento pessoal, porém, gradativamente assume contornos perturbadores e transforma aquela jornada em algo assustador.
O roteiro, assinado por Cíntia Domit Bittar e Fernanda Capua, encontra no movimento das trad wives um terreno especialmente fértil porque não se limita a ridicularizar suas personagens. Existem diferentes relações com aquele discurso.
Durante o retiro, as mulheres aprendem aquilo que supostamente constituiria uma esposa exemplar. É preciso acordar cedo, preparar a comida e a marmita do marido, conhecer a disposição correta dos elementos de uma mesa, cuidar da casa, da família, rezar e compreender seu papel dentro do casamento. O homem provê e protege; a mulher cuida. Os momentos em família são sagrados.
Mas, diante de tantas regras sobre como cuidar dos outros, uma pergunta começa a atravessar o filme: em que momento essas mulheres cuidam de si mesmas?
A submissão também ganha uma discussão curiosamente mais complexa do que inicialmente parece. Em determinado momento, surge o argumento de que todos somos submissos a alguma coisa. Somos submissos ao trabalho, aos chefes, aos sentimentos, às expectativas e às pessoas. A constatação provoca uma interessante quebra na rejeição automática da palavra “submissão”. Afinal, de alguma maneira, realmente nos submetemos constantemente a estruturas que organizam nossa vida.
O filme, entretanto, conduz essa reflexão para outra pergunta: reconhecer que todos nos submetemos a algo significa que uma mulher deveria deliberadamente escolher a submissão ao marido?
Essa capacidade de partir de uma afirmação que contém alguma verdade para revelar as consequências da conclusão construída a partir dela é uma das características que tornam Virtuosas mais inteligente do que uma simples sátira.
E sua inteligência não está somente nos diálogos.
Talvez uma das camadas mais interessantes do longa esteja justamente nas escolhas realizadas ao redor da história. Escalar Bruna Linzmeyer para ocupar posição central dentro de um universo que prega um modelo extremamente específico de feminino cria, por si só, uma contradição provocativa entre personagem, intérprete e discurso. O mesmo acontece quando outras figuras associadas publicamente a discursos muito diferentes daqueles defendidos pelas personagens aparecem naquele ambiente.
A locação também parece participar da piada. Utilizar uma casa associada às gravações de um programa marcado por uma representação bastante diferente de comportamento, desejo e relacionamentos, como espaço para um retiro destinado a fabricar “mulheres melhores” é uma ironia que dificilmente passa despercebida. Em Virtuosas, cenário e elenco não funcionam apenas como elementos técnicos: tornam-se parte do comentário.
É justamente por isso que o filme parece construído em camadas. Existe aquilo que as personagens dizem, aquilo que fazem quando estão sendo observadas e aquilo que revelam quando acreditam que ninguém está olhando.
A partir daí, a própria ideia de virtude começa a ser questionada.
Ser virtuosa significa seguir uma lista de comportamentos? Frequentar a igreja, rezar e defender publicamente determinados valores tornam alguém necessariamente uma pessoa virtuosa? O que acontece quando o discurso de amor, família e moralidade convive com violência, crueldade e ausência de empatia?
Virtuosas não parece interessado em atacar a fé propriamente dita, mas em observar o que acontece quando ela se transforma em instrumento de controle e em performance de superioridade moral. Existe uma diferença enorme entre acreditar e utilizar a crença como autorização para controlar a vida alheia – e o filme encontra seu horror exatamente nesse espaço.
Surge, então, outra pergunta incômoda: será que essas mulheres são realmente aquilo que ensinam outras mulheres a serem?
É nessa distância entre discurso e prática que o humor ácido de Virtuosas encontra o terror.
Mais do que assustar pelos mecanismos tradicionais do gênero, o filme incomoda pela possibilidade de reconhecermos seus discursos fora da sala de cinema. O horror está em perceber até onde alguém pode se sentir autorizado a ir quando acredita agir em nome de Deus, da família ou da moralidade. Quando uma convicção deixa de orientar a própria vida e passa a justificar aquilo que se impõe ao outro, as consequências podem ser muito mais assustadoras do que qualquer elemento sobrenatural.
No fim, talvez a provocação mais interessante esteja justamente no título.
Quem são, afinal, as virtuosas?
Você encontra Virtuosas nos cinemas a partir do dia 24 de Setembro .
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