Existe uma distância considerável entre sonhar e ter condições de sustentar um sonho. Funk, novo longa de Aly Muritiba, parece particularmente interessado nesse espaço: o lugar em que desejo, dinheiro, identidade e sobrevivência se misturam.
Em competição na Première Brasil do Festival do Rio 2026, o drama musical acompanha Sabrina (Duda Santos), jovem do Morro dos Prazeres que quer fazer do funk sua vida. Filha de Priscila (MC Neném), uma funkeira que já experimentou seu próprio momento de reconhecimento, Sabrina sabe onde pretende chegar. O que ainda não sabe é quanto de si mesma será cobrado para permanecer no palco.
Antes de qualquer sucesso, porém, existe a vida. Sabrina precisa trabalhar, pagar as contas, levar desaforo, enfrentar o racismo e ainda encontrar energia para acreditar que alguém vai notar seu talento e lhe oferecer uma oportunidade. Há algo muito verdadeiro nessa dimensão do filme: sonhar também custa dinheiro. Para quem não nasce cercado de facilidades, não basta possuir talento. É preciso conseguir sustentá-lo.
“Sabe o que eu quero? Eu quero comemorar a minha liberdade.”
Essa liberdade passa também pelo corpo e pelo direito de desejar. Ao entrar no universo do funk putaria, o filme encontra uma de suas provocações mais interessantes. Sabrina reivindica uma linguagem sexual aceita com naturalidade quando parte dos homens, mas constantemente policiada quando vem das mulheres. “A putaria é liberdade, mas também amor”, diz ela. Prazer e afeto não precisam estar em lados opostos.
Só que essa liberdade encontra limites o tempo inteiro. Sabrina enfrenta racismo no trabalho, questiona a diferença de cachê entre homens e mulheres e convive com a violência policial e com outros poderes que determinam como corpos periféricos podem circular.
Por isso o Rio que aparece em Funk me interessou tanto. O filme não reduz a cidade à favela ou ao baile, muito menos ao cartão-postal. Há praia, futebol, trabalhadores, festas, amigos e uma cidade vivida por quem precisa atravessá-la todos os dias.
A fotografia é um dos aspectos que mais chamam atenção. Em vários momentos, ela me levou a certo imaginário visual brasileiro dos anos 2000, algo entre a energia de Cidade de Deus e a estética popular de Furacão 2000. Não como cópia, mas pela textura, pelas luzes e pela maneira de encontrar beleza naquele universo. A trilha sonora e a montagem ajudam a manter essa pulsação.
Isso se relaciona diretamente com uma ideia defendida pela equipe: não fazer simplesmente um filme sobre o funk, mas um filme com o funk. A diferença é importante. O gênero não é apenas assunto. Está nos figurinos, nas coreografias, na linguagem, nos corpos e na própria construção estética do longa. Muritiba chegou a comparar seu processo criativo ao uso de samples, reunindo referências de fotografias, videoclipes e registros caseiros para construir algo próprio e real.
Duda Santos sustenta bem essa energia. Sua Sabrina tem fome de chegar ao próximo lugar. Quer palco, dinheiro, reconhecimento e liberdade. E é justamente quando começa a conseguir tudo isso que o filme encontra sua contradição mais interessante.
Ao trocar a amiga Raíssa (Lellê), que administrava sua carreira, por um empresário capaz de levá-la a outro patamar, Sabrina ganha estrutura, alcance e uma imagem mais polida. Só que esse polimento começa a parecer higienização. Quanto mais a indústria percebe seu potencial comercial, mais tenta aparar justamente aquilo que a fazia singular.
Sabrina finalmente consegue ser vista. A questão passa a ser: quem estão vendo quando olham para ela?
Raíssa pode ser uma empresária inexperiente, que erra e aprende na prática como aquele mercado funciona, mas conhece Sabrina antes de conhecer o produto. Há algo interessante até no sentido afetivo da palavra “amadora”: ela está ali também porque ama a amiga. A profissionalização posterior oferece eficiência, mas cobra outro preço.
Dentro de casa, existe ainda a relação difícil com Priscila. Sabrina cobra uma mãe que sente não ter tido, enquanto Priscila observa a ambição da filha com a experiência de quem já conheceu alguma versão daquele sonho e suas decepções. Entre as duas existem orgulho, mágoa, admiração e amor, mesmo quando nenhuma sabe exatamente como demonstrá-lo.
Mas talvez Sabrina precise percorrer todo esse caminho para finalmente compreender aquilo que não conseguia enxergar no começo.
Ela passa boa parte do filme olhando para a frente. O futuro significa sucesso, dinheiro, palco e reconhecimento; o passado parece representar tudo aquilo que precisa superar. Até que realiza o sonho e descobre que ele não era exatamente como havia imaginado.
É preciso chegar para perceber o que ficou pelo caminho.
Assim, Funk deixa de ser apenas uma história sobre uma jovem periférica que quer vencer na música. É também um filme sobre pertencimento e sobre o risco de conquistar um espaço que exige, em troca, o abandono daquilo que fez você chegar até ele.
Sabrina passa tanto tempo procurando no futuro uma versão melhor de si mesma que quase perde de vista quem sempre foi. Sua trajetória está justamente em recuperar essa identidade — os amigos, a mãe, o morro, sua linguagem, seu desejo — sem que isso signifique abrir mão de seguir adiante.
Porque talvez a verdadeira liberdade que Sabrina tanto procura não esteja apenas em chegar ao palco. Está em conseguir ocupá-lo sem precisar desaparecer.
Você encontra Funk no Festival do Rio.
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Até o próximo texto.