Às vezes, não me sinto à altura para falar sobre esse filme, porque ele me despertou tantos sentimentos e é composto de tantas camadas. Então, vamos às minhas impressões, aos meus pensamentos, baseados 100% nos meus sentimentos.
Eu não conhecia os filmes de Jane Schoenbrun. Fui ao cinema crua, sabendo apenas a sinopse. É claro que, quando saí do cinema, o filme imediatamente se tornou meu hiperfoco, e eu fui pesquisar tudo sobre ele.
Para começar, o filme é protagonizado por Hannah Einbinder, que vive Kris, e Gillian Anderson, que vive Billy Preston. Já acompanho o trabalho da Gillian há algum tempo. Assisti Sex Education, Hannibal e era fã de The Fall.
Mas, voltando a Acampamento Miasma…
Esse filme reúne muito do que eu cresci assistindo.
Primeiro, o slasher, que sempre foi o gênero de que mais gostei dentro do terror. Pânico, Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, Psicose, Halloween… E eu ainda estenderia isso para os anos 90 e 2000, colocando Cry Wolf, Premoniçãoe tantos outros.
Eu sei que muitos desses filmes possuem grandes problemáticas. Mas, às vezes, me sinto igual à Kris pequena diante da TV.
Porque eu também assistia a esses filmes pequena, dentro do meu imaginário inocente e infantil. E eu gostava da liberdade que eles retratavam. As festas, a diversão, os vários amigos juntos, o colegial, a faculdade. Para mim, enquanto criança, aquilo era todo um imaginário de como seria o mundo adulto.
E parecia legal.
Só que existe uma outra camada em Acampamento Miasma que também me levou de volta à infância e, principalmente, à adolescência: os filmes queers antigos, das décadas de 80, 90 e 2000.
Foi esse cinema que formou parte do meu imaginário. Que começou a despertar a minha sexualidade, enquanto mulher que estava se reconhecendo, se descobrindo.
E Schoenbrun ainda vai além e traz outro amor meu pelo cinema: a metalinguagem.
É um filme dentro de um filme. É uma forma de reverenciar o próprio cinema. O rolo de filme, o cinema enquanto espaço físico e, principalmente, uma roteirista e diretora que quer fazer um filme, quer contar a sua história, mas tem a sua liberdade criativa aparada por agentes e produtores que visam ao lucro e à repetição de fórmulas que já funcionaram antes.
Acampamento Miasma traz tantas referências que parece que cada cena foi pensada para conversar com alguma coisa.
A começar pela abertura.
A montagem é extremamente inteligente porque, em poucos minutos, contextualiza exatamente o universo sobre o qual Acampamento Miasma quer falar. Vemos uma franquia sendo explorada e saturada até perder o próprio público. É uma crítica muito clara ao que Kris chama de “propriedades intelectuais zumbis”: sequels, prequels, continuações, derivações, a exploração infinita de um mesmo universo.
Como vemos acontecer com Pânico, Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, Chucky, a franquia Halloween…
Quando Kris chega ao acampamento que se tornou a casa de Billy, o filme muda de atmosfera. E começam a aparecer outras referências.
Eu penso imediatamente em Carol.
A neve. A árvore de Natal. A luva. O clima que vai lentamente se criando entre aquelas duas mulheres.
Até chegar à preparação daquela noite romântica, ao som de Ordinary Love, da Sade.
Para mim, ali é o ápice dessas referências.
E os diálogos também são muito inteligentes. O filme começa a refletir sobre a própria maneira como filmes recebem um green light, sobre quem pode continuar contando histórias e quem a indústria decide deixar para trás.
Há um momento em que dizem para Kris que Billy jamais poderia voltar a protagonizar o filme simplesmente porque envelheceu.
E é impossível não pensar no que isso revela sobre o audiovisual e sobre a falta de protagonistas mulheres mais velhas, acima dos 50, dos 60 anos.
A trilha sonora é outro grande acerto.
Mas, afinal, como falar de um filme em que, para mim, tudo funciona?
Porque sinto que Acampamento Miasma vai além de criar reflexões e debates sobre a indústria cinematográfica.
Ele pega em um lugar muito mais íntimo.
Na nostalgia pelos filmes de terror. Na nostalgia pelos filmes queers. Na memória de tudo aquilo que eu assistia e que, sem perceber, estava formando o meu imaginário sobre o cinema, sobre a vida adulta, sobre liberdade, desejo e sobre quem eu viria a ser.
Talvez seja por isso que esse filme tenha me atravessado tanto.
Porque, em algum lugar, enquanto eu assistia a Acampamento Miasma, eu voltei a ser aquela criança diante da televisão.
E sinto que a Julia criança, sentada diante daquela tela, teria amado assistir a esse filme.
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Até o próximo texto.