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“Precisamos Falar” e a Pergunta que ninguém gostaria de Responder

Até onde você iria para proteger um filho? E quando o amor deixa de ser proteção e passa a ser conivência? “Precisamos Falar” transforma essas perguntas em um thriller psicológico incômodo, daqueles que não terminam quando as luzes da sala se acendem.

“Saúde, justiça e respeito.” A frase poderia ser apenas mais um jingle de campanha política. No entanto, em Precisamos Falar, ela ganha um peso quase irônico. Celso (Emilio de Mello) está concorrendo ao governo do Estado do Rio de Janeiro e, enquanto vende ao eleitor um discurso sobre justiça, dentro de casa precisará descobrir até onde realmente acredita nela.

Antes disso, porém, o filme nos coloca diante de uma câmera de celular. É através dela que vemos um ato brutal cometido por três adolescentes contra Antônia, uma mulher em situação de rua que recolhe papelão. A cena serve para deixar o espectador de boca aberta, mas também estabelece algo fundamental para tudo o que virá depois: estamos diante de imagens, versões, edições e narrativas. Michel (Thiago Voltolini) filma. Michel edita. Michel quer colocar na internet.

E aquele não é seu primeiro vídeo. É o décimo.

Talvez seja justamente aí que comece uma das perguntas mais importantes de Precisamos Falar: em que momento aquilo que os adultos chamam de “coisa de adolescente” deixa de ser apenas inconsequência? Michel já havia dado sinais. No comportamento, nas palavras, em uma redação escolar, na maneira racista e desumanizada de enxergar o outro. Existe uma crescente. E quando não encontra limite, ele continua avançando, e leva consigo os outros dois adolescentes, seus primos. Sua justificativa para provocar Antônia é assustadora justamente por sua simplicidade: caixa eletrônico é lugar de tirar dinheiro, não de dormir. Parece uma frase pequena, mas existe um mundo inteiro dentro dela.

Quem decidiu quem pode ocupar determinados espaços? Em que momento uma pessoa deixa de ser vista como pessoa e passa a ser entendida como alguém que está simplesmente “no lugar errado”? E quantas violências precisam acontecer antes da violência definitiva para que alguém perceba que alguma coisa está errada? Quando os pais finalmente são confrontados com o que os filhos fizeram, surge uma frase que talvez sintetize boa parte do problema: “Não são criminosos. São moleques fazendo merda.”

Mas qual é o limite desse “fazer merda”?

Existe um ponto em que passar a mão na cabeça deixa de ser amor. Fazer vista grossa também é uma escolha. Fingir que não sabe também é uma escolha. Permanecer em silêncio quando se conhece a verdade também é uma escolha. É nesse território que o filme dirigido por Pedro Waddington e Rebecca Diniz encontra sua maior força. Adaptado do best-seller internacional O Jantar, do escritor holandês Herman Koch, o longa transporta a história para uma realidade profundamente brasileira. O roteiro de Sérgio Goldenberg, com supervisão de Jorge Moura, coloca a polarização política, a desigualdade social, o privilégio e a própria relação do país com a justiça no centro dessa família. E então vem a pergunta mais difícil: o amor por um filho está acima de tudo?

Em determinado momento, alguém questiona:

“E que exemplo nós daríamos aos nossos filhos esquecendo o assunto?”

“Lealdade.”

“Lealdade ou conivência?”

É uma troca curta, mas talvez seja uma das conversas mais importantes do filme. Porque lealdade é uma palavra bonita. Amor também. Família também. Mas palavras bonitas podem servir para justificar coisas terríveis? Quando quatro adultos conhecem a verdade sobre três adolescentes, o problema deixa de pertencer somente aos jovens.

A cada tentativa de esconder, manipular ou encontrar uma saída, a responsabilidade começa a se espalhar pela mesa. E surgem soluções cada vez mais desconfortáveis: ninguém sabe quem são os adolescentes, então por que não permanecer em silêncio? Por que não encontrar alguém para levar a culpa? Por que não usar dinheiro para resolver o problema? É o privilégio revelando uma de suas faces mais perversas: acreditar que talvez exista sempre uma porta de saída; desde que você tenha dinheiro, influência ou poder suficiente para encontrá-la.

No caso de Celso, há ainda outra camada. Existe uma eleição. Existe uma imagem pública.  E talvez seja fácil defender princípios enquanto eles não nos custam nada. O difícil é descobrir se continuamos acreditando neles quando o preço passa a ser nosso.

Precisamos Falar também encontra força visual nesse contraste. Boa parte do conflito acontece em uma casa deslumbrante, cercada por verde, natureza, plantas e uma vista privilegiada do alto do Rio de Janeiro. Tudo parece bonito, organizado, protegido. Enquanto isso, por dentro, aquela família está ruindo. A fotografia mais escura e sombria e uma trilha que parece querer incomodar acompanham essa deterioração. E faz sentido: este não é um filme que deseja deixar o espectador confortável.

As atuações de Marjorie Estiano, Alexandre Nero, Hermila Guedes e Emílio de Mello ajudam muito nisso. O conflito não funciona apenas como discussão abstrata sobre ética. São pais olhando para os próprios filhos e percebendo que qualquer decisão terá consequências. E é justamente por conseguirmos enxergar o medo, o amor, o egoísmo e as contradições desses adultos que a pergunta deixa de pertencer apenas aos personagens.

Ela chega até nós.

O filme também toca em questões como adoção, relações entre irmãos e primos, responsabilidade de menores de idade, exposição nas redes sociais e o alcance de uma internet em que uma violência pode ser filmada, editada e transformada em conteúdo. Michel não apenas participa: ele registra. E existe algo especialmente contemporâneo e assustador nisso. A câmera deixa de ser testemunha e passa, de alguma maneira, a fazer parte do próprio ato. Nesse sentido, quando se fala em regulamentação da internet, outra pergunta se abre: o que significa regulamentar um espaço em que atos de violência, racismo e humilhação podem virar conteúdo, circular e incentivar novas violências? E onde termina a responsabilidade das plataformas e começa a responsabilidade de pais, escolas e dos próprios usuários?

A imprensa também aparece como uma espécie de janela para o lado de fora daquela casa. Enquanto os adultos discutem o que fazer entre quatro paredes, existe uma população revoltada querendo respostas. Existe uma vítima. Existe uma sociedade que não conhece os dilemas íntimos daquela família; conhece apenas o resultado de seus atos. E talvez seja importante que seja assim. Porque, quando amamos alguém, conhecemos sua história, seus medos, suas qualidades, suas fragilidades. Para nós, ele nunca é apenas aquilo que fez. Mas a pessoa que sofreu as consequências daquele ato também tinha uma história. Antônia tinha uma história.

É muito fácil perguntar se entregaríamos um desconhecido à Justiça. Mais difícil é perguntar: e se fosse o meu filho? E se fosse meu sobrinho? O amor muda o peso de uma culpa? Talvez Precisamos Falar seja exatamente sobre aquilo que o título anuncia. Precisamos falar sobre os filhos que criamos. Sobre aquilo que eles reproduzem do que escutam dentro de casa. Sobre privilégio. Sobre racismo. Sobre dinheiro. Sobre internet. Sobre justiça. E, principalmente, sobre a facilidade com que transformamos nossos princípios quando eles começam a atingir aqueles que amamos.

Produzido pela Conspiração, em coprodução com a Globo Filmes, e distribuído pela Sony Pictures e Conspiração, Precisamos Falar estreia nos cinemas brasileiros em 24 de setembro.  É um thriller psicológico, mas talvez seu maior suspense não esteja em descobrir o que aconteceu. Nós sabemos o que aconteceu. O verdadeiro suspense é descobrir o que cada pessoa é capaz de fazer depois de saber a verdade. E, quando o filme acaba, sobra uma pergunta que já não pertence mais àquela família: se fosse o seu filho, o que você faria?

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