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Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria: Maternidade, Colapso e o Teto que desaba sobre todas nós

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é um daqueles filmes que todo mundo precisa ver. Saí impactada da sessão no Festival do Rio e demorei dias para digerir tudo o que Mary Bronstein constrói aqui. É um filme que te atravessa; não por gritar, mas por expor com precisão e ironia o que significa ser mulher (e mãe) em colapso.

Mary Bronstein não filma apenas uma mulher à beira de um colapso, ela filma o colapso em si. Em Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, Rose Byrne é Linda, uma mãe, psicóloga e sobrevivente de um cotidiano que parece conspirar contra ela. O teto literalmente desaba, e a metáfora não poderia ser mais óbvia  e mais dolorosamente real. Depois que a água invade o apartamento, Linda é obrigada a se mudar para um motel com a filha doente. O marido está sempre ausente, o terapeuta parece mais interessado em provocá-la do que em ajudá-la, e o mundo inteiro parece lhe exigir equilíbrio quando tudo o que ela precisa é de cinco minutos de silêncio e solitude. A vida desmorona em câmera lenta  e, de alguma forma, ainda assim ela precisa dar conta de tudo.

“Deve ser legal fazer as coisas para se divertir.”

O filme, distribuído pela A24, é uma comédia sombria com cara de pesadelo doméstico. Mary Bronstein filma o caos com precisão: as câmeras próximas, os closes sufocantes, os enquadramentos que cortam o ar. A ausência visual da filha, que só aparece de corpo fragmentado, em pés, mãos e orelhas, é um gesto brilhante. A criança existe, mas o foco está na mãe, e isso muda tudo. Se víssemos a menina por completo, talvez esquecêssemos de olhar para Linda, e é justamente sobre isso que o filme fala: sobre a mulher que desaparece por trás da função de ser mãe.

“Isso é típico dela.”

Rose Byrne está monumental. Vencedora do Urso de Prata de Melhor Atriz em Berlim, ela equilibra exaustão, desespero e ironia com uma entrega que parece saída de um transe. Em cada expressão dela há culpa e resistência, vergonha e amor. Byrne não interpreta a “boa mãe”,  ela vive a mulher real, que quer amar, mas também quer fugir. Que ama o silêncio tanto quanto teme a solidão. O roteiro de Bronstein, ao mesmo tempo cruel e engraçado, tem um humor que nasce do absurdo da rotina. “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria” não é apenas um título provocativo — é um grito abafado de todas as mulheres que tentam sustentar uma casa, um trabalho, uma criança e a própria sanidade.

“Só quero que alguém me diga o que fazer.”

A diretora brinca com os gêneros: há drama, há comédia, há um leve tom de thriller psicológico. E em meio a tudo isso, surge o retrato cru da maternidade contemporânea; uma maternidade atravessada por culpa, vergonha e exaustão. A mãe perfeita é uma ficção tão perigosa quanto o teto que ameaça cair. O filme faz uma pergunta silenciosa: será que todas nasceram para ser mãe? E uma afirmação ainda mais incômoda: ser mulher já é, por si só, uma forma de resistência. No fim, Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria deixa uma sensação que fica no corpo. É impossível sair igual. Porque depois de acompanhar Linda, você nunca mais olha para a sua mãe — nem para si mesma — da mesma maneira.

Você encontra Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria no Festival do Rio .
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Até o próximo texto.

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In-I in Motion — Corpo que Dança o Próprio Medo

Ontem assisti In-I in Motion no Festival do Rio. Dirigido e estrelado por Juliette Binoche, o filme parte de um gesto de coragem: o de se colocar vulnerável diante da arte e da própria limitação.

Em 2007, Binoche decidiu se afastar do cinema para criar um espetáculo de dança com o coreógrafo Akram Khan. O acordo entre os dois era simples e simbólico; ela o ajudaria a se tornar um ator melhor, e ele a ensinaria a dançar. Dessa troca nasceu o espetáculo In-I, e agora o filme, que mistura bastidores, ensaios e performance em um só movimento.

É curioso observar uma atriz do tamanho de Binoche se despindo da segurança da atuação para explorar um novo corpo. O documentário registra o processo cru: ensaios longos, tropeços, cansaço, frustrações e momentos de descoberta. Há algo de profundamente humano em vê-la aprender a respirar de outro jeito, cair e levantar, buscar o ritmo com o corpo inteiro. A dança que nasce do erro é, talvez, a mais verdadeira.

Em muitos momentos, In-I in Motion se torna um espelho da relação entre Binoche e Khan,  dois artistas tentando acessar o que há de mais autêntico no outro. Entre o atrito e a parceria, o filme encontra sua pulsação. É arte lapidando arte.

Durante o festival, Binoche comentou que não gostou completamente do resultado final e que o espetáculo completo ao fim foi uma decisão da distribuidora. Ela trabalha em um novo corte, trinta minutos mais curto. E faz sentido: há um respiro que o filme ainda busca, uma leveza que cabe melhor em sua proposta.

Mas o que mais me tocou foi o que ela disse após a sessão: que todos temos um artista dentro de nós, e que o desafio é vencer o medo de acessá-lo. Em In-I in Motion, ela faz exatamente isso,  enfrenta o medo com o corpo, sem máscaras, sem controle, sem se esconder.

Como espectadora, admirei a coragem. Como artista, senti vontade de me mover também,  de errar mais, tentar mais, existir mais. In-I in Motion não é apenas um filme sobre dança; é sobre libertar o corpo da exigência de perfeição.

No fim, o essencial permanece: o instante em que o medo se transforma em movimento.

Você encontra In i In Motion no Festival do Rio.

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Até o próximo texto.

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Alpha — Corpo como Contágio e Salvação

Alguns filmes não terminam quando a tela escurece, eles permanecem dentro da gente, como uma febre. Alpha, novo longa de Julia Ducournau, é exatamente isso: um filme que arde, coça e não cicatriza.

Escrito e dirigido pela cineasta que redefiniu o horror corporal com Raw e Titane, Alpha é, antes de tudo, um mergulho na carne; mas uma carne que apodrece e se desfaz em pó, que não grita, mas silencia. Um drama familiar que começa íntimo e termina apocalíptico, questionando o que acontece quando o amor e a infecção se tornam indistintos.

Assisti Alpha no Festival do Rio  e confesso: minhas expectativas eram enormes. Julia Ducournau é minha diretora preferida. Há algum tempo, quando me perguntaram quem eu mais admirava no cinema, não soube responder. Só soube depois de ver Raw e Titane. Ali entendi que o cinema dela me atravessa de um jeito raro: é físico, feminino e selvagem. Ela filma o corpo como quem filma a alma.

E Alpha reafirma isso. Já na cena inicial, uma menina desenha nas feridas do homem que cuida dela, ligando cicatrizes como quem tenta reconstruir uma constelação perdida. É belo e incômodo, quase impossível desviar o olhar. A câmera de Ducournau tem essa delicadeza brutal: a de nos fazer olhar mesmo quando queremos desviar.

“Não é um bom momento para sangrar.”

Quando o filme corta para o tio de Alpha se drogando, vi ali um eco de Réquiem para um Sonho. A agulha, a pele, o desespero. Mas o que mais me marcou foi a cena seguinte: Alpha, já adolescente, bêbada em uma festa, deixando que alguém tatue um “A” torto em seu braço. Naquele momento, me vi lembrando do que assistia aos treze, como Eu, Christiane F. e Skins. Aquela mistura de descoberta e autodestruição, o desejo de pertencer e o medo de se perder. Julia Ducournau entende esse limiar como poucos, o instante em que o corpo quer ser livre e acaba virando prisão.

O filme é uma grande odisseia pandêmica. A infecção aqui é tanto literal quanto simbólica: corpos que se tornam mármore antes de se dissolver em pó branco. O medo se espalha, e a sociedade se desintegra — um reflexo de tudo o que vivemos, do isolamento, da paranoia, da falta de toque. Há um momento em que a mãe de Alpha, interpretada de forma arrebatadora por Golshifteh Farahani, limpa o vômito da filha e descobre o corte fresco da tatuagem, e eu senti o nó na garganta de quem ama e teme ao mesmo tempo.

Tahar Rahim está esplêndido como o tio, um corpo frágil, doente e cheio de culpa. A relação entre os três: mãe, filha e irmão,  é o coração pulsante do filme. É onde Ducournau transforma o horror em ternura, a doença em vínculo.

E como sempre, a trilha sonora é um personagem à parte. Quando Portishead começa a tocar logo no início, senti aquele arrepio que só o cinema dela provoca,  como se cada batida de som fosse uma gota de sangue caindo em câmera lenta.

“Deve ser um inferno ser criança hoje em dia.”

Sim, o último ato se estende demais, com saltos temporais um pouco confusos. Mas mesmo ali, há uma coerência emocional: o caos é parte da experiência. Alpha é um filme sobre o colapso,  do corpo, da família, do mundo.

Saí da sessão com a sensação de estar coberta pelo mesmo pó branco que domina a tela. Como espectadora, senti o incômodo físico; como roteirista, admirei a coragem. E como mulher, me reconheci naquele gesto final,  o de tentar religar a carne rasgada de alguém.

No fim, Alpha não é sobre vírus. É sobre o contágio que é amar alguém até o limite da dor. E talvez seja por isso que eu continue pensando nele — e em Julia Ducournau — muito depois que a luz do cinema se apagou.

Você encontra Alpha no Festival do Rio.

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Até o próximo texto.

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GOAT — Entre o Corpo, o Mito e o Preço da Grandeza

Ontem eu assisti GOAT. Dormi com ele e acordei com ele, e talvez isso diga mais sobre o filme do que qualquer análise técnica. Porque GOAT reverbera. Incomoda. Fica. E talvez fique justamente porque toca num ponto que o cinema raramente se atreve a encarar com tanta brutalidade: a dor física e simbólica do esporte.

Dirigido por Justin Tipping e apadrinhado por Jordan Peele, o filme acompanha Cameron “Cam” Cade (Tyriq Withers), um jovem quarterback em ascensão que, após uma lesão quase fatal, recebe uma segunda chance das mãos do seu maior ídolo, Isaiah White (Marlon Wayans). O que começa como um sonho se transforma em um pesadelo ritualístico — um mergulho na masculinidade tóxica, na idolatria e nos limites entre treino, tortura e transcendência.

O título GOATGreatest of All Time — é mais do que uma sigla de grandeza; é uma sentença. A busca pelo “melhor de todos” se torna literal e monstruosa, quando a linhagem dos GOATs é revelada como uma sucessão de corpos sacrificados, sangue transferido, poder herdado. Há algo de religioso e profano nesse ciclo: cada geração de atletas devora a anterior, numa metáfora explícita da sociedade que consome seus heróis até o osso.

Como espectadora e como roteirista, me vi dividida. Há uma ideia potente ali; um terror corporal que conversa com a pressão do desempenho, com o corpo como campo de guerra e com a mente como campo minado. Há momentos em que o filme encontra essa carne pulsante, principalmente quando Cam treina sob o sol cortante do deserto, e o suor parece se misturar à loucura. Mas entre o segundo e o terceiro ato, a narrativa se perde: as metáforas se tornam literais demais, o visual repete fórmulas, e o clímax parece apressado;  mais preocupado em chocar do que em aprofundar.

Como esportista, reconheço o que o filme tenta dizer: o sacrifício, a cobrança, o vazio depois da glória. Aquele lugar em que só a dor te faz seguir em frente. Mas como alguém que vive o cinema, senti falta de ritmo, de sutileza e de consistência visual. A fotografia e a montagem flertam com algo interessante: os flashes em raio X, a mudança de temperatura de cor,  mas acabam se tornando excessivas, previsíveis.

Mesmo assim, GOAT me tocou num ponto íntimo: essa mistura entre corpo e mente, entre fé e dor, entre o sonho e o pesadelo de ser “o melhor”. Há uma linha fina entre superação e autodestruição, e o filme caminha exatamente sobre ela, tropeçando, às vezes, mas deixando rastros.

No fim, o sangue que escorre do corpo de Cam é o mesmo que escorre de qualquer um que já tentou ser perfeito demais em algo. GOAT não é um filme redondo, mas é um espelho rachado — e às vezes é neles que a gente mais se reconhece.

Você encontra The Goat nos Cinemas.

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Rabia – As Esposas do Estado Islâmico (2024)

Assisti Rabia na sessão de abertura da 2ª edição do Festival de Filmes Incríveis e saí da sala em silêncio. Com aquele silêncio pesado, cheio de pensamento. É um filme que não grita. Ele murmura. Ele aperta. Ele marca.

Inspirado na história real da marroquina Faitha Mejjati (a temida Oum Adam), o longa de Mareike Engelhardt, em sua estreia como diretora, mergulha num dos aspectos menos explorados (e mais assustadores) do regime do Daesh: as madafas, casas onde jovens mulheres ocidentais, convertidas e doutrinadas, aguardavam para se tornarem esposas dos combatentes.

Acompanhamos Jessica, uma jovem francesa, que troca a promessa de liberdade por uma cela invisível em Raqqa. Inicialmente deslumbrada pela promessa de pertencimento e fé, ela logo se vê nas mãos de Madame (vivida por Lubna Azabal), uma figura carismática, fanática e cruel. Uma verdadeira regente do silêncio, da manipulação e do apagamento feminino.

O filme acerta ao fugir do sensacionalismo: não mostra a violência diretamente, mas ela está ali; nos ruídos abafados, nas portas trancadas, nos olhares desviados. A encenação usa o fora de campo como arma estética e emocional. O som, o silêncio, as marcas no corpo e na alma falam mais alto que qualquer diálogo.    Mereike Engelhardt entende o poder do não dito, e é nesse não dito que o horror cresce.

A fotografia de Agnès Godard é outro destaque: claustrofóbica quando precisa ser, etérea em alguns momentos, ela acompanha visualmente a transformação (e deformação) de Jessica: de uma jovem idealista a alguém dilacerada e moldada pela dor. A trilha sonora de David Chalmin, tênue e incômoda, reforça essa espiral sombria.

Mas talvez o maior acerto de Rabia seja o roteiro. Ele não explica, não paternaliza, não julga. Ele observa. Ele denuncia. E nos convida a refletir. Mulheres que buscam uma nova vida, uma identidade, acabam encontrando o contrário disso: submissão, vigilância, apagamento.

E há uma reviravolta cruel: o ciclo da violência se perpetua. Jessica se torna Oum Rabia (“raiva”), e a vítima começa a reproduzir aquilo que sofreu. A cena da virada é seca, sem alarde e por isso mesmo tão devastadora.

Rabia é, sim, duro. Mas necessário. Um retrato quase inédito dessas casas-prisões comandadas por mulheres, onde outras mulheres eram treinadas, moldadas e, muitas vezes, destruídas. E é também um lembrete: ainda hoje, muitas dessas meninas continuam presas no campo de refugiados de Al-Hol, vivendo o rescaldo do extremismo.

No final, o filme não oferece respostas fáceis, mas uma fagulha de esperança. E a pergunta que fica, ecoando depois dos créditos, é: quantas outras Jessicas ainda estão por aí, acreditando que estão sendo salvas, quando na verdade estão sendo silenciadas?

Você encontra Rabia- As Esposas do Estado Islâmico nos Cinemas a partir do dia 21 de Agosto .

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Anora

Desde que Sean Baker surgiu no cenário cinematográfico com obras marcantes como Tangerina (2015) e Projeto Florida (2017), seu nome tem sido sinônimo de autenticidade e experimentação no cinema independente. Com Anora, Baker não só consolida seu status como um dos criadores mais ousados de sua geração, mas também abre caminho para a temporada de prêmios, posicionando seu novo filme como um forte concorrente ao Oscar de 2025 – especialmente após ser coroado com a Palma de Ouro em Cannes 2024.

Baker, que assina tanto o roteiro quanto a direção, prova novamente ser um exímio observador da humanidade, com um talento único para explorar e humanizar personagens marginalizados. Sob o pretexto de uma comédia romântica, ele constrói em Anora um filme que transborda crítica social, nuances emocionais e uma sensibilidade estética que é ao mesmo tempo crua e deslumbrante. O resultado é uma história que desconstrói o conto de fadas empacotado em Hollywood e entrega algo infinitamente mais real, mais doloroso e mais memorável.

O roteiro é um dos pilares mais fortes do filme. Sean Baker consegue equilibrar com diálogos naturalistas, momentos de leveza cômica e reflexões sobre poder, classe social e trabalho sexual. A protagonista Ani ou Anora, como é chamada ao longo do filme ganha profundidade e camadas como raramente se vê em personagens femininas. Interpretada por Mikey Madison em sua performance mais impactante até agora, Ani é uma protagonista complexa em todos os sentidos. Vivendo como trabalhadora do sexo no Brooklyn, Ani encara os desafios diários de sua rotina com uma mistura de pragmatismo e cuidado: fazendo piadas, comendo no meio do expediente e conversando com amigas, enquanto navega por um ambiente cercado de preconceitos.

A genialidade do roteiro está em construir sua trajetória sem didatismos ou paternalismos. Ani, com sua personalidade forte e vulnerável, não é apresentada como vítima absoluta nem como heroína, mas como uma mulher cuja humanidade é mostrada em cada cena.  Madison entrega uma interpretação recheada de nuances, mesclando força e ingenuidade. É impossível não se conectar com sua Ani, uma personagem cujas escolhas imprudentes têm consequências trágicas, mas que nunca perde sua dignidade. A relação da personagem com Ivan (Mark Eydelshteyn), o filho de um oligarca russo, revela a disparidade crua entre aqueles que sofrem com a desigualdade social e aqueles que permanecem acima de quaisquer consequências.

Sean Baker não se contenta em contar uma história; ele transforma Anora em uma experiência cinematográfica quase tátil. A direção é precisa, criativa e permeada por uma energia que captura tanto o caos quanto a esperança de sua narrativa. Baker sabe perfeitamente quando desacelerar para explorar os momentos mais íntimos – entre Ani e suas amigas ou mesmo suas interações mais vulneráveis com Ivan – e quando escalar a trama para o puro absurdo.

No segundo ato, quando a família de Ivan entra na história e uma comitiva de capangas chega ao Brooklyn para anular o casamento do casal, Baker eleva a comédia ao limite do tragicômico. O caos instaurado nas situações – tragicômicas e absurdas – que se seguem é um triunfo criativo, ao mesmo tempo em que serve como veículo para uma crítica contundente às dinâmicas de poder. Baker expõe o ridículo dessas situações, mas nunca de forma gratuita, usando o exagero como forma de intensificar o impacto emocional e crítico do longa.

A fotografia  é, simplesmente, espetacular. O filme transita entre momentos de intensa intimidade e sequências grandiosas embaladas pela vibrante estética neon do Brooklyn. A fotografia captura a pulsação da cidade: é ao mesmo tempo elétrica e sufocante, delicada e brutal.  Sean Baker sabe como usar a paleta de cores saturada para amplificar a viagem emocional de sua protagonista – seja nos tons quentes que iluminam uma noitada de sonhos com Ivan ou os tons frios e desolados que refletem as duras investidas do mundo ao redor de Ani.

A trilha sonora também brilha como um elemento-chave. Sua força vai além de complementar a narrativa; ela é uma extensão dos eventos do filme, capaz de carregar peso dramático em cenas silenciosas e intensificar o ritmo das sequências mais caóticas. A escolha precisa de cada faixa, como TATU na trilha sonora é um golpe de mestre: ao mesmo tempo nostálgica e provocativa, sua presença musical ressoa de forma poderosa, contribuindo para um ambiente que mistura o clássico e o moderno, o leve e o pesado.

Embora Anora seja vendido como uma comédia romântica – e, em determinados momentos, flerte com esse tom –, é na desconstrução do gênero que a obra realmente brilha. Baker utiliza as convenções do conto de fadas moderno para expor a disparidade de classes e as injustiças intrínsecas entre aqueles que têm poder e aqueles que vivem à margem.

Ivan, o filho de uma família rica que age com desdém sobre suas ações, é o completo oposto de Ani, que precisa lidar com todas as consequências de suas escolhas. Enquanto ele retorna para a Rússia sem nenhuma marca de sua experiência, ela é deixada para recolher os pedaços da vida que tentou construir. O filme não dá respostas fáceis nem oferece conforto. O final é desconfortável, porém autêntico, refletindo de forma honesta as desigualdades de um mundo onde poder e privilégio ditam as regras.

Anora não é apenas um grande filme; é uma obra que reafirma o talento de Sean Baker. Em um ano competitivo, é difícil imaginar que o filme não continue ganhando atenção na temporada de prêmios. É um filme que transcende os rótulos, ao mesmo tempo acessível e desafiador, comédia e drama, deslumbrante e desconfortável.

Você encontra Anora a partir do dia 23 de Janeiro nos Cinemas.

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A Real Pain

A Real Pain é um marcante longa-metragem roteirizado, dirigido, produzido e estrelado por Jesse Eisenberg, que teve passagem pelo Festival do Rio 2024. Esta comédia dramática nos proporciona uma experiência emocional profunda ao abordar temas como o luto, a memória e as complexidades das gerações de imigrantes. O filme acompanha dois primos que saem dos Estados Unidos para uma viagem à Polônia, na tentativa de se reconectarem com suas raízes judaicas.

Kieran Culkin, cuja atuação já lhe rendeu um Globo de Ouro recentemente, rouba a cena com uma performance que é tanto hilária quanto comovente. Se em Succession seu personagem Roman Roy era uma figura cheia de ironia e tensão, aqui Culkin entrega algo mais  multidimensional. Sua expressão está sempre viva, oscilando rapidamente entre ironia, comédia e hostilidade brincalhona, conforme ele encapsula a complexidade da dor e do humor humano.

Eisenberg permite que o filme seja frequentemente dominado pela atuação de Culkin. Há muitos closes em Culkin, revelando lentamente as camadas emocionais ocultas, dando-nos momentos em que parece possível enxergar seu futuro eu mais velho e o seu passado/presente marcado por dor, uma figura atemporal que poderia ter qualquer idade. Esse toque de direção revela a profundidade da dor e da vivência autêntica que permeia todo o filme.

Mas o que faz de A Real Pain uma experiência única é a imersão no “entre” — a extensa janela de autodescoberta que habita o silêncio do abrir e fechar das cortinas de um espetáculo. Através de uma viagem repleta de memórias e paisagens arquitetônicas da Polônia, o reconhecimento histórico e pessoal se torna palpável à medida que os primos exploram desde campo de concentração até monumentos de celebração, transformando o tour turístico em uma jornada de reverência e contemplação.

Em meio às gargalhadas e às lágrimas, o filme é, de fato, uma ode às dores da alma, mostrando-nos como rir em meio aos trágicos momentos da vida adulta. Eisenberg nos desafia a ver a solidão não apenas como isolamento, mas como uma oportunidade para a solitude e a percepção do luto por uma nova ótica.  Ele utiliza sua falta de tato social e humor peculiar para oferecer uma narrativa cativante sobre dois primos que vivem momentos distintos, mas encontram um terreno comum na busca por suas raízes.

A Real Pain convida o espectador a embarcar em uma narrativa emocional que é menos sobre como tudo termina, mas sobre a jornada em si – o caminho entre o começo e o fim, onde a vida realmente acontece. O filme, com seu caráter individual e identidade distintiva, transforma as perdas da vida em comédia e contemplação,  trazendo à tona a beleza na dor e no renascimento. Afinal, somos todos sobreviventes porque viver é sobreviver a verdadeira dor.

Você encontra A Verdadeira Dor a partir do dia 30 de Janeiro nos Cinemas.

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Federer: 12 Final Days

“Federer: Twelve Final Days” é uma emotiva despedida de um dos maiores ícones do esporte mundial, dirigido por Asif Kapadia e Joe Sabia. Este documentário não é apenas uma retrospectiva da carreira de Roger Federer, mas uma homenagem sincera e comovente ao homem por trás da raquete, cujas façanhas em quadra cativaram milhões ao redor do mundo.

Desde o momento chocante do anúncio de sua aposentadoria, o filme prende o espectador com uma avalanche de emoções. Acompanhamos de perto não apenas Federer, mas também sua família—sua esposa, filhos e pais—e até mesmo telefonemas de influentes figuras públicas e fãs. A coletiva de imprensa que abalou o mundo esportivo em 2022 é retratada com uma sensibilidade que destaca a magnitude do momento.

Ao longo do documentário, vemos Roger Federer refletir sobre sua jornada pessoal e profissional, revelando suas inseguranças após uma cirurgia no joelho—uma fase que nunca imaginou enfrentar. A habilidade de Kapadia e Sabia em capturar a vulnerabilidade de Federer adiciona uma camada profunda de humanidade à lenda do tênis. A luta para recuperar a confiança, as dificuldades nas partidas de longa duração e o impacto crescente de suas limitações físicas são mostrados sem filtros, permitindo que os espectadores compreendam a complexidade emocional de um atleta diante do fim de sua carreira competitiva.

O pano de fundo dos 12 dias que antecedem sua última partida na Laver Cup em Londres é ricamente ilustrado pela relação de Federer com outros gigantes do tênis, como Djokovik, Nadal e Murray. Essas interações, especialmente com seu herói de infância, Björn Borg, dão um toque de nobreza ao legado que Federer deixa. Mesmo em sua despedida, Federer promete não “sumir e virar um fantasma” como Borg, reafirmando seu compromisso contínuo com o tênis e seus fãs.

A montagem do filme é um dos pontos altos. Kapadia e Sabia alternam imagens dos jogos épicos de Federer, incluindo suas lendárias batalhas contra Rafael Nadal, com imagens caseiras de um jovem Federer treinando com fervor adolescente. Essa narrativa visual cria uma conexão íntima entre o passado e o presente, sublinhando a evolução do jogador e do homem.

“Federer: Twelve Final Days” não é apenas um documentário; é um tributo à paixão, resiliência e ao espírito indomável de um atleta que redefiniu o tênis moderno. É um lembrete poderoso do impacto duradouro que Roger Federer teve no esporte e na vida de tantas pessoas. A emoção que permeia cada frame não deixa dúvida: este filme é uma celebração à altura de uma lenda.

Você encontra Federer: Twelve Final Days na Amazon Prime video.

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