Categorias
Sem categoria

Verity

Verity transforma a casa em testemunha de uma história em que ninguém parece dizer toda a verdade

Existe uma pergunta que atravessa Verity desde o início: Quem é o vilão?

Dirigido por Michael Showalter e adaptado do best-seller de Colleen Hoover, Verity parte justamente de um universo em que a perspectiva do vilão importa. Verity Crawford (Anne Hathaway) construiu sua carreira escrevendo a partir desse ponto de vista, e talvez seja por isso que, quando o filme começa a embaralhar ficção e realidade, verdade e manipulação, seja tão difícil saber em quem acreditar. Porque, afinal, todos podem estar contando uma história. E toda história depende de quem a conta.

Antes mesmo de mergulhar nesse jogo, porém, o filme parece fazer três apresentações. Primeiro, a casa. Depois, Verity. E, por fim, Lowen. E não é por acaso que a casa vem primeiro.

Há algo nela que ultrapassa a função de cenário. A propriedade dos Crawford é tão sombria quanto as personagens que a habitam e, aos poucos, assume quase a posição de uma testemunha silenciosa. É ela que esteve ali. É ela que viu as diferentes versões daquela história acontecerem. Se existe alguém capaz de saber a verdade, talvez seja justamente aquela casa. O problema é que ela não pode falar.

Verity surge em outro tempo, no auge da carreira, durante uma entrevista. Lowen Ashleigh (Dakota Johnson), por sua vez, é apresentada no presente, em uma situação quase oposta: está em uma livraria para o lançamento de seu livro, mas praticamente ninguém parece estar ali por ela. É uma escritora em dificuldade, sem público e precisando de dinheiro. Curiosamente, pouco depois, Lowen diz gostar de ser invisível.

E essa frase permanece.

Porque fica a dúvida: sua falta de sucesso vem apenas da ausência de oportunidades ou existe nela algum conforto nessa invisibilidade?

É justamente essa mulher que receberá uma oportunidade capaz de mudar sua vida. Depois de um encontro improvável com Jeremy Crawford (Josh Hartnett), marido de Verity, Lowen é contratada para terminar a série de livros da escritora, agora impossibilitada de escrever. Há uma necessidade financeira evidente; a morte da mãe deixou dívidas, mas existe também a possibilidade de finalmente se aproximar daquele reconhecimento que nunca teve.

Só que há uma contradição interessante nisso: para ser reconhecida, Lowen precisa desaparecer. Como ghostwriter, seu trabalho exige que ela escreva como outra pessoa. Não basta concluir uma história. Ela precisa encontrar a voz de Verity, reproduzir seu ritmo, compreender sua lógica e entregar aos leitores aquilo que eles esperam daquela autora. Para escrever como Verity, portanto, Lowen precisa entrar em sua cabeça. E é exatamente aí que Verity começa a se tornar mais interessante.

Na propriedade isolada da família, em Vermont, Lowen passa a conhecer não apenas a obra de uma escritora que até então sequer havia lido, mas os fragmentos de uma vida marcada por tragédias. Entre livros, rascunhos e anotações, ela encontra o que parece ser um manuscrito autobiográfico de Verity. E, conforme lê, a pergunta deixa de ser apenas o que aconteceu naquela casa para se tornar outra: Quem é Verity?

Ela é a mulher daqueles escritos? É tão perturbadora quanto as personagens que criou? O manuscrito é uma confissão, um exercício literário ou alguma coisa entre os dois?

Michael Showalter constrói boa parte do suspense justamente nesse espaço de incerteza. O filme nos coloca dentro da cabeça de Verity através dos olhos de Lowen, mas nunca oferece segurança suficiente para sabermos se aquilo que vemos pertence à realidade, à escrita ou à imaginação de quem lê. É nesse aspecto que fotografia e montagem se tornam fundamentais.

A casa é cercada pela natureza e, ao mesmo tempo, parece permitir que essa natureza invada seus interiores. Há vidro por toda parte, grandes superfícies transparentes, uma arquitetura que cria a impressão de que tudo pode ser visto. É uma escolha particularmente interessante para uma história construída em torno daquilo que permanece escondido. Quanto mais transparente a casa parece, menos conseguimos enxergar o que realmente aconteceu dentro dela.

Essa sensação também aparece na maneira como as imagens são organizadas. Verity trabalha com sobreposições, paralelismos e imagens que coexistem dentro do quadro. Quando Lowen lê, as palavras podem invadir a tela; enquanto acessa os relatos, aquilo que imagina ganha corpo diante de nós. Presente e passado passam a ocupar o mesmo espaço visual. A leitura deixa de ser apenas uma ação para se transformar em imagem. E existe um perigo aí: nós também começamos a ver como Lowen vê.

A montagem não apresenta simplesmente um passado objetivo. Ela materializa uma versão desse passado. Conforme Lowen mergulha na escrita de Verity, o espectador mergulha junto e começa a perder a capacidade de separar aquilo que aconteceu daquilo que foi escrito,  e aquilo que foi escrito daquilo que foi imaginado.

A trilha sonora reforça essa instabilidade e a sensação constante de que alguém está observando. Há alguma coisa naquela casa que nunca permite que Lowen,  e consequentemente o espectador,  esteja completamente confortável.

É nesse ambiente que Anne Hathaway encontra talvez um dos desafios mais curiosos do filme. Durante boa parte da narrativa, Verity está em uma cadeira de rodas, aparentemente catatônica. Os médicos falam em movimentos involuntários e em poucas possibilidades de recuperação. Hathaway, portanto, precisa construir presença justamente pela ausência do movimento e da palavra. E ainda assim existe alguém ali.

Um olhar, uma pequena alteração, um gesto que talvez tenha acontecido; ou talvez não. A interpretação funciona porque nos obriga a observar Verity com a mesma obsessão de Lowen. Procuramos sinais naquele corpo. Tentamos descobrir se houve intenção onde aparentemente não deveria existir nenhuma. E, a partir de certo momento, já não sabemos se estamos realmente vendo esses sinais ou se, assim como Lowen, passamos a querer encontrá-los.

Dakota Johnson funciona como o nosso caminho para dentro desse labirinto. Lowen chega à casa como uma observadora, mas observar nunca é um gesto completamente neutro. Quanto mais conhece Verity, mais se aproxima de sua vida, de sua escrita e de Jeremy. E, aos poucos, as fronteiras começam a se embaralhar. Talvez seja por isso que a ideia de repetição se torne tão inquietante.

Ao entrar na cabeça de Verity para conseguir escrever como ela, até onde Lowen continua sendo Lowen? Quanto existe de identificação, quanto existe de projeção e quanto existe de desejo nessa aproximação? Em algum momento, conhecer a história de outra pessoa pode significar também começar a ocupar o seu lugar?

Verity encontra sua força justamente quando não responde imediatamente às perguntas que cria. Ficção e realidade, manipulação e atração, oportunidade e obsessão começam a existir próximas demais umas das outras. E, quando cada personagem pode carregar sua própria versão dos acontecimentos, a verdade deixa de ser uma certeza para se transformar em disputa. Talvez por isso a casa seja uma presença tão importante.

Enquanto todos falam, escrevem, lembram, imaginam ou escondem, ela permanece ali. Silenciosa. Assistiu a Verity antes da chegada de Lowen, observa Lowen tentando compreendê-la e guarda dentro de si acontecimentos que conhecemos apenas através das versões de outras pessoas. No fim, voltamos à pergunta inicial: quem é o vilão?

Talvez a inquietação de Verity esteja justamente em perceber que, antes de responder, é preciso decidir em qual história estamos dispostos a acreditar.

Você encontra Verity nos cinemas a partir de hoje .

Gostou do conteúdo? Então deixa uma comentário para eu saber disso!
Até o próximo texto.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *