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A Real Pain

A Real Pain é um marcante longa-metragem roteirizado, dirigido, produzido e estrelado por Jesse Eisenberg, que teve passagem pelo Festival do Rio 2024. Esta comédia dramática nos proporciona uma experiência emocional profunda ao abordar temas como o luto, a memória e as complexidades das gerações de imigrantes. O filme acompanha dois primos que saem dos Estados Unidos para uma viagem à Polônia, na tentativa de se reconectarem com suas raízes judaicas.

Kieran Culkin, cuja atuação já lhe rendeu um Globo de Ouro recentemente, rouba a cena com uma performance que é tanto hilária quanto comovente. Se em Succession seu personagem Roman Roy era uma figura cheia de ironia e tensão, aqui Culkin entrega algo mais  multidimensional. Sua expressão está sempre viva, oscilando rapidamente entre ironia, comédia e hostilidade brincalhona, conforme ele encapsula a complexidade da dor e do humor humano.

Eisenberg permite que o filme seja frequentemente dominado pela atuação de Culkin. Há muitos closes em Culkin, revelando lentamente as camadas emocionais ocultas, dando-nos momentos em que parece possível enxergar seu futuro eu mais velho e o seu passado/presente marcado por dor, uma figura atemporal que poderia ter qualquer idade. Esse toque de direção revela a profundidade da dor e da vivência autêntica que permeia todo o filme.

Mas o que faz de A Real Pain uma experiência única é a imersão no “entre” — a extensa janela de autodescoberta que habita o silêncio do abrir e fechar das cortinas de um espetáculo. Através de uma viagem repleta de memórias e paisagens arquitetônicas da Polônia, o reconhecimento histórico e pessoal se torna palpável à medida que os primos exploram desde campo de concentração até monumentos de celebração, transformando o tour turístico em uma jornada de reverência e contemplação.

Em meio às gargalhadas e às lágrimas, o filme é, de fato, uma ode às dores da alma, mostrando-nos como rir em meio aos trágicos momentos da vida adulta. Eisenberg nos desafia a ver a solidão não apenas como isolamento, mas como uma oportunidade para a solitude e a percepção do luto por uma nova ótica.  Ele utiliza sua falta de tato social e humor peculiar para oferecer uma narrativa cativante sobre dois primos que vivem momentos distintos, mas encontram um terreno comum na busca por suas raízes.

A Real Pain convida o espectador a embarcar em uma narrativa emocional que é menos sobre como tudo termina, mas sobre a jornada em si – o caminho entre o começo e o fim, onde a vida realmente acontece. O filme, com seu caráter individual e identidade distintiva, transforma as perdas da vida em comédia e contemplação,  trazendo à tona a beleza na dor e no renascimento. Afinal, somos todos sobreviventes porque viver é sobreviver a verdadeira dor.

Você encontra A Verdadeira Dor a partir do dia 30 de Janeiro nos Cinemas.

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Até o próximo texto.

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Maria – A Resiliente Voz da Tragédia e a Força de Angelina Jolie

O fascinante mundo da ópera e a trágica vida de sua maior estrela, Maria Callas, ganham vida no drama biográfico Maria, dirigido por Pablo Larraín e roteirizado por Steven Knight. Conhecido por trazer à grande tela histórias complexas de mulheres notáveis, como visto em Jackie e Spencer, Larraín oferece, mais uma vez, uma narrativa envolvente ao lado do roteirista Steven Knight. A interpretação de Angelina Jolie como protagonista promete ser uma  grande atuação para o ano, potencialmente direcionada a uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz.

Maria se concentra na última semana de vida da lendária soprano greco-americana, cuja carreira foi marcada por uma técnica de bel canto impecável, um poderoso alcance vocal e interpretações psicológicas profundas. Através da delicada direção de Larraín, acompanhamos Callas não apenas em seu ofício, mas também nos delírios causados pelo abuso de Mandrax, que combinados com uma vida solitária contrastam intensamente com seu amor pela adoração do público.

“Não estou com fome. Venho aos restaurantes para ser adorada.”

A trama mergulha em questões íntimas, revelando os efeitos devastadores da solidão de Callas e seu amor complexo pelo magnata Aristotle Onassis. A atuação de Jolie é destacada não apenas pelos treinos extensivos que a atriz passou para capturar a postura, respiração, sotaque e o próprio canto de Callas, mas também pela sua habilidade em transmitir a angústia e vulnerabilidade da cantora nos seus momentos mais debilitados. A performance de Jolie é sutil e poderosa.

O filme se diferencia pela sua construção visual. A fotografia e montagem são combinadas, alternando entre filmagens em preto e branco e cenas coloridas. Os closes de Maria e os vídeos históricos de suas apresentações trazem uma autenticidade que mergulha o espectador na realidade daquele tempo. As cenas de ópera são meticulosamente recriadas, transportando o público aos memoráveis palcos de Londres, Milão, e Paris. É importante notar também as performances de Haluk Bilginer e Valeria Golino, que, como personagens secundários, acrescentam camadas adicionais ao drama da vida real de Callas. Eles complementam a jornada emocional de Maria.

Maria vai além de apenas uma simples biografia; é um retrato sensível de uma mulher cuja vida foi tão cheia de glórias quanto de dores. Pablo Larraín e Angelina Jolie criaram uma obra que não só honra a memória de Maria Callas, mas também evidencia a complexidade de seu legado.

Com a temporada de prêmios se aproximando, é justo afirmar que Maria posiciona-se como um concorrente, especialmente nas categorias de Melhor Atriz e quem sabe Melhor Direção. A performance de Jolie já garantiu uma indicação ao Globo de Ouro. Em suma, “Maria” é um filme que oferece uma visão rara e intimista de uma das vozes mais icônicas da ópera mundial e apresenta um trabalho cinematográfico que é, ao mesmo tempo, visualmente deslumbrante e emocionalmente impactante.

Você encontra Maria a partir do dia 16 de Janeiro nos Cinemas.

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Bolero, o Mistério de Ravel

Bolero, O Mistério de Ravel , dirigido por Anne Fontaine, foi selecionado para a 15ª edição do Festival Varilux de Cinema Francês 2024. O filme exibe uma produção impecável, com um elenco adequado, figurinos e cenários de época meticulosamente recriados, e diálogos claros que elucidam a trama. No entanto, essa precisão e segurança podem ser vistas como uma abordagem excessivamente resumida e talvez asfixiante em termos de potencial narrativo.

“Nada é mais concreto do que a música.”

Bolero se passa em 1928, durante os vibrantes anos loucos de Paris, quando a dançarina Ida Rubinstein encomenda a Maurice Ravel uma composição para seu próximo balé. Enfrentando uma crise de inspiração, o filme nos leva a revisitar os capítulos da vida de Ravel, interpretado competentemente por Raphaël Personnaz, incluindo seus desafios precoces, as cicatrizes da Grande Guerra e um amor não correspondido por sua musa Misia Sert. Ravel, uma figura complexa e cartesiana, é retratado como um homem notavelmente sensível devotado à música – ao ponto de declarar que nunca se casou porque estava casado com a música.

“Acho que me perdi em minha própria música.”

Apesar da ambientação impecável e das boas intenções narrativas, o filme muitas vezes sucumbe a uma abordagem que não explora plenamente o potencial emocional e psicológico de seus personagens. Há vários filmes possíveis dentro deste, cada um mais provocativo que o outro, mas todos parecem asfixiados em suas possibilidades únicas por essa abordagem resumida. A repressão sexual de Ravel, por exemplo, é subutilizada; sua falta de impulso carnal é reduzida a gestos de afeto não correspondidos ou a incapacidade de expressar seus verdadeiros sentimentos. Essa explosão de possibilidade é tratada apenas como um pano de fundo, não alcançando o clímax emocional necessário.

O filme também deixa de explorar profundamente a percepção intelectual e emocional de Ravel em relação ao trabalho artístico da bailarina, evidenciando uma defasagem perceptiva entre ele e a dança meramente de um ponto de vista intelectual. Tais nuances estão presentes e disponíveis para o olhar atento, mas a direção de Fontaine, embora competente, não lhes dedica a atenção devida, preferindo manter uma narrativa segura e linear em um “safe zone”.

“A cada 15 minutos, alguém no mundo está tocando Bolero de Ravel.”

Bolero é um filme agradável, que sabe seduzir o espectador com sua mistura de leveza e beleza cativantes. No entanto, ele se revela uma obra sem grandes sustos narrativos, mas também sem grandes provocativas. Anne Fontaine, ao construir a biografia de Maurice Ravel, nos entrega um trabalho visualmente esplêndido, mas que parece se contentar em permanecer na superfície do drama do personagem, em vez de mergulhar nas profundezas de suas complexidades emocionais.

Distribuído no Brasil pela Mares Filmes e com classificação indicativa livre, o filme, apesar de suas sofisticadas pretensões e estudo meticuloso de época, poderia ter sido um estudo mais íntimo e penetrante de Ravel.

Você encontra Bolero no Festival Varilux 2024.

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Retrato de um Certo Oriente

Retrato de um Certo Oriente é uma adaptação do premiado romance Relato de um Certo Oriente de Milton Hatoum. A trama inicia-se em 1949, quando os irmãos libaneses católicos Emilie e Emir abandonam um Líbano em iminência de guerra, embarcando em direção ao desconhecido Brasil. Durante a travessia, Emilie se apaixona pelo comerciante muçulmano Omar, despertando o ciúme incontrolável de Emir, que culpa os muçulmanos pela morte trágica de seus pais. A viagem torna-se ainda mais dramática quando uma briga entre Emir e Omar resulta em um tiro acidental que fere gravemente Emir. Emilie, desesperada, busca ajuda em uma aldeia indígena na selva amazônica para salvar a vida de seu irmão. Recuperado, eles continuam para Manaus, onde as escolhas de Emilie levam a consequências trágicas.

Filmado em um impressionante preto e branco, a cinematografia de Pierre de Kerchove é uma das maiores forças do filme. Cada cena é cuidadosamente elaborada. Os planos fechados trazem uma intimidade poderosa, permitindo que o público se conecte profundamente com as emoções dos personagens. Em diversos momentos, a fotografia remete às obras de Sebastião Salgado, transportando o espectador para um “quadro amazônico” de rara beleza.

Marcelo Gomes, cuja filmografia inclui obras como Cinema, Aspirinas e Urubus e Viajo porque preciso, Volto porque te amo, demonstra novamente sua habilidade em traduzir histórias complexas e humanas para o cinema. A adaptação de “Relato de um Certo Oriente” é tratada com delicada sensibilidade, balanceando a fidelidade ao texto literário com uma abordagem cinematográfica inventiva. Gomes consegue transformar as memórias e fluxos de consciência do romance em uma narrativa visualmente rica e emocionalmente carregada.

A trilha sonora sutil e evocativa complementa perfeitamente a estética do filme, onde muitas vezes o som é de uma natureza presente. Em vez de dominar a narrativa, a música trabalha em harmoniosa sinergia com a cinematografia, sublinhando momentos de tensão e introspecção sem jamais distrair o público da história central.

Além da fotografia, as performances são outro pilar de Retrato de um Certo Oriente. Wafa’a Celine Halawi oferece uma Emilie multifacetada e profunda, enquanto Zakaria Kaakour e Charbel Kamel trazem intensidade e autenticidade aos seus papéis. A participação de Rosa Peixoto e sua família, emprestando rituais e costumes indígenas, adiciona um valioso contraste cultural à trama. A narrativa aborda questões de memória, tradição e identidade de maneira que ressoa profundamente.

Retrato de um Certo Oriente é um estudo íntimo sobre memória, paixão e preconceito, imergido no contexto da imigração libanesa na Amazônia brasileira. A obra é uma homenagem calorosa à complexidade emocional e cultural do romance de Milton Hatoum, traduzida para a tela com sublime maestria por Marcelo Gomes.

Marcelo Gomes entrega um épico íntimo que permanece fiel ao espírito do romance original, ao mesmo tempo em que cria algo profundamente novo e admirável.

Você encontra Retrato de Um Certo Oriente a partir do dia 21 de Novembro nos Cinemas.

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Avenida Beira Mar

Avenida Beira-Mar, o mais novo longa-metragem de Maju de Paiva e Bernardo Florin, é uma obra que ressignifica o gênero coming of age através de um olhar autêntico e sensível sobre a adolescência, as relações familiares e a busca de identidade. O filme chega com um peso significativo, apoiado pelo Selo ELAS da Elo Studios, que visa promover a equidade de gênero no audiovisual.

A trama gira em torno de Mika, uma jovem que busca sua identidade em meio à rigidez e incompreensão de seus pais, contrastando com sua ressignificação do uso das roupas deixadas pela irmã mais velha, que já não reside mais na mesma casa. Em uma reviravolta emocional, Mika conhece Rebeca, uma nova amizade que transforma ambas as vidas.

A amizade entre as duas meninas, contra todas as previsões, cria a força motriz da narrativa. Ao invés do previsível abismo causado pelas diferenças, elas constroem um vínculo de cumplicidade e apoio mútuo. No entanto, a visão pequena e preconceituosa dos adultos em relação a essa amizade desencadeia uma série de eventos dramáticos, transformando a tranquila Avenida Beira-Mar em um palco de confrontos.

“A praia é de todo mundo.”

Maju de Paiva e Bernardo Florin demonstram uma direção notável, focando-se em atmosferas intimistas e desenvolvendo personagens com profundidade. Tal competência foi reconhecida no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara, onde eles ganharam o prêmio de Melhor Direção.

O roteiro que já havia tido reconhecimento no FRAPA 2018 e outros festivais, agrega valor ao filme. Os diálogos são fortes e genuínos ao mesmo tempo, ao mostrar a contradição daqueles que deveriam se portar como rede de apoio, como proteção, mas acabam por piorar diante de falas e comportamentos. E as situações dramáticas reverberam a essência do cotidiano, mas com um toque que convida à reflexões.

“Vocês são muito crianças ainda. Vocês nem sabe o que vocês são.”

Avenida Beira-Mar não se destaca apenas pela sua narrativa, mas também pelo movimento que representa. O Prêmio Selo ELAS Cabíria Telecine 2020, o destaque no Maguey Award e a participação no Festival Des 3 Continents, em Nantes, corroboram a importância e a relevância do filme no cenário internacional.

Maju e Bernardo explicam que o projeto nasce do desejo de apresentar novos protagonistas pertencentes ao nosso universo, em vez da imagem dourada da infância frequentemente retratada em filmes estadunidenses. A trajetória de Mika, Rebeca e Marta reflete nossa busca por pertencimento e compreensão mútua, celebrando o que temos em comum.

Avenida Beira-Mar é um filme que não só navega pelas águas turbulentas da adolescência, mas também desafia narrativas tradicionalmente plastificadas ao trazer à tona histórias que precisam ser contadas com empatia. Nos recordando do poder do cinema como uma ferramenta de identificação e conexão, oferecendo um espelho para experiências que, embora individuais, são profundamente humanas.

Com uma direção promissora, um roteiro sensível e uma mensagem poderosa, o longa-metragem  é essencial para todos, todas e todes.

Você encontra Avenida Beira-Mar a partir do dia 21 de Novembro nos Cinemas.

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A Substância

Quem assistir A Substância, o novo filme de Demi Moore, certamente não o esquecerá. Ambientado na vibrante cidade de Los Angeles, o filme abre com um plano da icônica Calçada da Fama de Hollywood, onde uma nova estrela está sendo instalada. Essa estrela pertence à atriz Elisabeth Sparkle, protagonizada por Moore, e logo é vista desintegrando-se, rachada e pisoteada — um prenúncio simbólico dos temas centrais da narrativa: juventude, beleza e pertencimento.

Elisabeth, com mais de 50 anos e recém-demitida de um programa de TV devido à baixa audiência, recorre a medidas extremas para recriar uma versão perfeita de si mesma. O que começa como um filme feminista, abordando preconceito etário e padrões de beleza, rapidamente se transforma em algo distintamente inesquecível e profundo. Sparkle recorre a um misterioso processo de “clonagem caseira”, com a ajuda de uma droga ilícita, resultando no nascimento de Sue, uma jovem e alegre sósia (interpretada por Margaret Qualley) que literalmente emerge de sua coluna vertebral.

Esse ritual de rejuvenescimento, repetido a cada sete dias, está no cerne da crítica do filme. A condição de troca cíclica de corpos revela as consequências devastadoras e enfatiza a transitoriedade da juventude e da beleza. Elisabeth é apresentada como a “matriz,” vivendo sob a constante pressão do descontentamento corporal à medida que envelhece, metaforicamente ilustrando que até a rainha má já foi uma princesa, assombrada pelo reflexo que lhe lembra do tempo que roubou sua juventude.

À medida que Elisabeth recorre à sua versão jovem para alcançar seus objetivos, inicialmente consegue o que sempre desejou. No entanto, a narrativa leva um rumo sombrio e visceral quando começamos a ver os efeitos adversos de suas escolhas. A Substância não economiza em elementos de horror corporal, repleto de sangue e momentos profundamente inquietantes. Um marco para fãs de Julia Ducournau, fortemente conhecida pelos filmes de horror corporal que vão de curtas a longas.

A atuação de Demi Moore, como uma estrela em declínio, é desprovida de glamour. Ela abraça a crueza e a vulnerabilidade do papel, destacando a beleza deteriorada de Elisabeth Sparkle. “De certa forma, eu senti que queria fazer isso”, ela explica. “Parte do que tornou interessante foi ir a um lugar tão cru e vulnerável, para realmente me desprender. E foi bastante libertador em muitos aspectos.”

A narrativa também desconstrói expectativas associadas a contos de fadas, onde a conclusão do filme integra uma linha impactante de Dennis Quaid, “meninas bonitas devem sempre sorrir,” sublinhando as pressões persistentes em torno da feminilidade e dos padrões de beleza. Esse diálogo, uma crítica ao idealismo dos contos de princesas, reforça a brutalidade da realidade abordada no filme.

Visualmente, a diretora Coralie Fargeat cria um universo que mistura glamour, medo e asco. Sua direção, somada às performances estelares de Moore e Qualley, é vital para a eficácia do filme como uma alegoria sobre os perigos da obsessão pela perfeição física. A montagem do filme, com transições secas e cruas, mantém o espectador imerso na brutalidade da narrativa.

“O ponto crítico está na sensação contínua de que o tempo está se esgotando,” comenta Fargeat. Esse sentimento de urgência é tangível ao longo de todo o filme, enfatizando a efemeridade da beleza e a pressão impiedosa para mantê-la.

A estreia de A Substância no Festival de Cannes gerou muitos comentários, e o filme rapidamente se tornou um dos mais discutidos da edição de 2024. Atualmente, está nos cinemas e chegará ao catálogo da MUBI em 31 de outubro, oferecendo uma narrativa perturbadora e relevante.

A exploração do “body horror” no filme não é meramente para causar choque, mas para refletir as barreiras físicas, corporais e emocionais que as pessoas atravessam para alcançar os padrões de beleza. Em uma era de procedimentos estéticos sem fim, o filme apresenta uma perspectiva moderna, crítica e, em muitos momentos, surrealista sobre a obsessão pela juventude e pela aparência.

A Substância é um filme que provoca reflexão, desconforto e admiração, não apenas desafia os limites do horror convencional, mas também oferece uma crítica impactante à obsessão com a juventude e a beleza.

Você encontra A Substância nos cinemas e a partir do dia 31 de Outubro, na Mubi.

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O Último Pub: Um Último Brinde ao Realismo Social de Ken Loach

Ken Loach, um dos grandes mestres do realismo social britânico, oferece com O Último Pub uma narrativa que une o estilo inconfundível do cineasta com temas profundamente relevantes. Contudo, a abordagem, desta vez, é um tanto didática e previsível, o que dilui parte do impacto emocional que Loach busca alcançar.

Ambientado em um vilarejo decadente no nordeste da Inglaterra, o filme segue TJ Ballantyne (Dave Turner), o proprietário de um pub que é o último refúgio de uma comunidade devastada pelo fechamento das minas de carvão. A chegada de refugiados sírios, incluindo a jovem Yara (Ebla Mari), agita a rotina do local e expõe os preconceitos e tensões latentes na população.

O roteiro de Paul Laverty, colaborador frequente de Loach, não se esquiva do humor ácido, mas é predominantemente sério e ponderado. Laverty passa suas mensagens de forma clara e direta, quase didática, fazendo com que os temas do filme sejam transmitidos sem intermediários. Isso, no entanto, acaba por criar uma sensação de que estamos sendo conduzidos por uma narrativa com um propósito predefinido, deixando pouco espaço para a sutileza.

Dave Turner traz uma performance ancorada e melancólica a TJ, transmitindo a essência de um homem dividido entre seu compromisso com os habituais clientes do pub, muitos com visões xenofóbicas, e seu desejo de ajudar os refugiados. Ebla Mari, por outro lado, embute em Yara uma força tranquila e uma determinação, apesar de algumas falas excessivamente expositivas.

O filme não se esquiva das suas intenções. Quando TJ fala sobre a injustiça e como frequentemente culpamos quem está abaixo de nós na hierarquia social, ou quando Yara explica seu exílio de forma didática.

Os coadjuvantes, como Charlie (Trevor Fox), o preconceituoso local, e Tania (Debbie Honeywood), a idealista da vila, ajudam a povoar o cenário com figuras credíveis, que refletem o realismo naturalista que Loach sempre perseguiu. Essa forte atuação do elenco, juntamente com a fotografia naturalista de Robbie Ryan, que capta de forma visceral a dureza da vida no vilarejo, contrapõem-se à simplicidade do roteiro.

“É preciso força para fazer algo bonito.”

A estrutura do filme, porém, tende a seguir caminhos previsíveis, com mortes e interações supostamente projetadas para arrancar lágrimas. Esses mecanismos narrativos, embora efetivos para provocar reações emocionais, não se sentem genuínos, dando ao público a sensação de que suas emoções estão sendo manipuladas.

O Último Pub é, sem dúvida, uma obra carregada de boas intenções e mensagens importantes, especialmente em um contexto global onde os fluxos migratórios e os preconceitos viram pautas constantes. Ainda assim, a pregação explícita e a falta de nuances na narrativa podem afastar parte da audiência que busca uma conexão emocional mais autêntica e uma experiência cinematográfica menos direcionada.

“Isso não é caridade, é solidariedade.”

Ken Loach, em seu suposto último filme, oferece um brinde ao seu legado de realismo social, mas talvez um brinde que deixa um gosto um tanto agridoce na boca. O Último Pub nos lembra do poder das pequenas gentilezas e da solidariedade em tempos de crise, mas o faz de uma maneira que, por vezes, sacrifica a autenticidade em favor do didatismo.

Você encontra O Último Pub no Now.

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A Vilã das Nove

Em A Vilã das Nove, Roberta (Karine Teles) está finalmente vivendo a melhor fase de sua vida. Recém-divorciada e desfrutando de uma nova vida ao lado de sua filha Nara (Laura Pessoa), Roberta se sente revigorada e pronta para abraçar novas oportunidades. No entanto, sua paz é abalada quando descobre que o seu passado, marcado por escolhas difíceis e abandono, foi transformado em enredo de uma novela das nove, onde ela é retratada como a vilã.

A Vilã das Nove, dirigido por Teodoro Poppovic, é uma comédia dramática que se utiliza do cenário da televisão brasileira, familiar ao público, para contar uma história curiosa e humanizada. O filme nos leva ao mundo das telenovelas, o que torna impossível não lembrar imediatamente das grandes produções da Globo, SBT, e Record que moldaram gerações com suas tramas e personagens memoráveis, seja por uma cena ou pela caracterização da personagem dentro da novela que está dentro do filme.

Poppovic dirige uma narrativa que funde o melodrama característico das telenovelas brasileiras com uma metalinguagem singularmente envolvente. O roteiro é cuidadoso ao traçar a linha tênue entre a ficção televisiva e a vida real, explorando como nossas histórias pessoais podem ser reinterpretadas e distorcidas quando entram na esfera pública.

Roberta (Karine Teles) descobre que sua vida se transformou na trama de uma novela das nove, um horário nobre da TV brasileira onde personagens icônicos como Odete Roitman da Globo e Maria do Bairro do SBT brilharam intensamente. A maneira como a vida de Roberta é meticulosamente desenrolada, criando um paralelismo com as celebres novelas do passado, como Avenida Brasil e Senhora do Destino, é ao mesmo tempo nostálgica e inovadora.

Karine Teles oferece uma atuação poderosa e autêntica como Roberta, cuja crise existencial e busca por redenção ancoram o filme emocionalmente. Alice Wegmann, no papel de Débora, imbuída de ressentimento e dor, complementa de forma magistral a interpretação de sua mãe fictícia. O restante do elenco, incluindo Otto Jr., Camila Márdila e Antônio Pitanga, contribui significativamente para a profundidade e autenticidade da narrativa.

A trilha sonora é outro destaque que vai de clássicos de Marina Lima a composições internacionais cuidadosamente escolhidas. Cada música é pensada para sublinhar o drama e a comédia. A fotografia e edição são bem executadas, capturando acontecimentos do presente, passado e da gravação da novela. A preparação vocal do elenco, uma parte frequentemente negligenciada e raramente mostrada ao público que desconhece as funções envolvidas na realização de uma obra audiovisual, ganha destaque.

A metalinguagem presente no filme, ao mostrar as etapas de criação de uma novela – desde a concepção do roteiro até as gravações –, oferece um olhar sobre os bastidores da televisão. O diálogo que leva a entender que “Tudo se resolve no roteiro” encapsula a essência do que faz uma boa telenovela ou o que a leva ao seu abismo, destacando a importância de uma boa narrativa, seja na vida real ou na ficção.

Vilã das Nove não é apenas uma homenagem ao mundo das telenovelas brasileiras, mas também uma exploração profunda dos temas de arrependimento, redenção e relações familiares. Poppovic entrega um filme que é, ao mesmo tempo, um tributo e uma crítica ao poder e influência das produções televisivas na vida das pessoas. Com grandes atuações e um roteiro com diálogos potentes, o filme teve as suas primeiras exibições no Festival do Rio.

 

Você encontra A Vilã das Nove nos principais cinemas do Brasil a partir do dia 31 de Outubro.

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 Malês: Uma Luta Pela Liberdade Que Ecoa Até Hoje

Antonio Pitanga, ícone do Cinema Novo, retorna em grande estilo com Malês, um filme profundamente comovente e historicamente importante que aborda a Revolta dos Malês, ocorrida em Salvador, Bahia, em 1835. Este momento crucial da história afro-brasileira é capturado com sensibilidade e vigor, resultando em uma obra cinematográfica que é ao mesmo tempo educativa e emocionalmente impactante.

A trama segue dois jovens muçulmanos africanos que são arrancados de sua terra natal e levados como escravos para o Brasil. Durante esta dolorosa jornada, uma história de resiliência e busca incessante pela liberdade se desenrola. Sequestrados do seio de suas famílias e comunidades, eles são separados e forçados a lutar, tanto física quanto emocionalmente, para sobreviver e se reencontrar. Nesse percurso, acabam se envolvendo na maior insurreição de escravizados da história do Brasil, protagonizada por 600 escravizados muçulmanos. Esta rebelião, embora sufocada em menos de 48 horas com a repressão violenta e assassinato de seus líderes, deixou uma marca indelével na história.

“Se o mundo quer fazer meu filho de escravo, eu quero mudar o mundo.”

Durante a pré-estreia, que integrou a 26ª edição do Festival do Rio e ocorreu em uma sessão especial no Cine Odeon, nomes de peso como Lázaro Ramos, Benedita da Silva e Maju Coutinho compareceram para prestigiar o filme. Antonio Pitanga, com seus filhos Camila e Rocco Pitanga, marcou presença, destacando a importância pessoal e histórica do projeto.

Pitanga, interpretando Pacífico Licutan, um dos líderes malês, demonstra uma atuação carismática e cheia de nuances. Seu personagem enfatiza a importância da união entre diferentes povos, tribos e religiões para o sucesso da revolta e o fim da escravidão. A produção também retrata outras importantes lideranças, como Ahuna (Rodrigo de Odé), Manuel Calafate (Bukassa Kabengele), Vitório Sule (Heraldo de Deus) e Luís Sanim (Thiago Justino), oferecendo ao público um retrato detalhado e multifacetado dos líderes dessa insurreição histórica.

” O tempo se alarga para caber todas as histórias.”

Sob a direção de Pitanga, o filme consegue balancear intimidade e grandiosidade, capturando os detalhes da vida cotidiana dos escravizados enquanto mostra a magnitude de sua coragem e sacrifício. A fotografia, que utiliza locações autênticas em Cachoeira, Salvador e Maricá, é visualmente deslumbrante e carrega um peso histórico que transporta o espectador diretamente para a Bahia do século XIX.

O roteiro de Manuela Dias é outro ponto alto, buscando não apenas narrar a Revolta dos Malês, mas também explorar a profundidade da luta contra o racismo e a intolerância religiosa por meio de fortes diálogos. Manuela constrói uma narrativa rica e de múltiplas camadas, que convida o espectador a refletir sobre questões ainda pertinentes na sociedade contemporânea.

A trilha sonora, com tambores fortemente presentes, complementa a narrativa ao evocar a espiritualidade e a resistência dos personagens. A direção de arte e o figurino também merecem destaque, proporcionando uma imersão completa no contexto histórico do filme.

“Não é ajudar, é participar.”

Malês não é apenas um filme sobre o passado; é uma obra que ressoa fortemente no presente. Antonio Pitanga, aos 85 anos, entrega uma direção apaixonada e uma interpretação poderosa, apoiado por um elenco talentoso e uma equipe dedicada. O filme é, acima de tudo, um tributo à resiliência e à coragem daqueles que lutaram e continuam a lutar contra a opressão.

Com uma estreia programada para 14 de novembro, Malês não só reconta uma história essencial da cultura afro-brasileira, mas também promove uma reflexão profunda sobre as desigualdades atuais.

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O Quarto ao Lado – Almodóvar em Novas Terras, Mesma Essência

Pedro Almodóvar, um dos cineastas mais célebres da Espanha, faz sua estreia na língua inglesa com O Quarto ao Lado, recém exibido no Festival do Rio 2024. Essa obra que conquistou o Leão de Ouro no Festival de Veneza, não só celebra a jornada linguística do diretor, mas consolida sua habilidade inigualável de oferecer narrativas emocionalmente ricas e visualmente cativantes.

Inspirado no livro O que Você Está Enfrentando, de Sigrid Nunez, o longa conta a história de Ingrid (interpretado por Julianne Moore), uma escritora consagrada que descobre que sua antiga colega, Martha (vivida por Tilda Swinton), está lutando contra um câncer incurável. Após reencontrar-se com Martha no hospital e perceber sua solidão, Ingrid aceita um inusitado convite para se juntar a ela em uma casa isolada em Woodstock. As duas tentam reencontrar a paz enquanto se deparam com dilemas éticos e emocionais atemporais.

Almodóvar, mesmo filmando em um idioma diferente do seu habitual, mantém sua assinatura. O Quarto ao Lado conserva belos enquadramentos geométricos, cores vibrantes sempre compostas pelo amarelo e vermelho vivos e uma profundidade emocional que são marcas registradas do diretor. O filme usa a beleza visual para contrastar temas pesados como a doença terminal e a perda, oferecendo uma rica experiência visual e psicológica. Entretanto, discutir sobre eutanásia e finitude dentro desses laços não parece ser o maior foco do diretor, que prefere explorar a complexidade e a cumplicidade das relações humanas.

O roteiro, embora não seja revolucionário em termos de inovação narrativa, surpreende ao entrelaçar diálogos cômicos com temas tão densos. Almodóvar demonstra novamente sua habilidade em encontrar leveza e até risos em momentos que poderiam ser esmagadoramente sombrios. Esse toque de humor não só alivia a intensidade do filme, mas também humaniza as personagens, tornando-as mais acessíveis e reais.

“Há muitas formas de viver uma tragédia”.

Tilda Swinton oferece uma performance inigualável. Seu retrato de Martha, tanto fisicamente combalido quanto psicologicamente complexo, é fascinante. Swinton navega entre serenidade e impaciência, ilustrando de maneira crível a oscilação emocional que atravessa aqueles que enfrentam doenças graves e as consequências dos tratamentos, mesmo quando paliativos. Além disso, sua habilidade de inserir um timing cômico em momentos inesperados é uma demonstração de seu talento multifacetado.

Julianne Moore, por sua vez, encara um desafio ainda maior com Ingrid, uma personagem que deve equilibrar empatia e força diante do sofrimento da amiga. Moore encanta e emociona com sua profundidade e vulnerabilidade, oferecendo uma performance que conquista a empatia do espectador.

” Não entendo como algo vivo tem que morrer.”

Eduard Grau, em sua primeira colaboração com Almodóvar, captura a essência visual do diretor, oferecendo uma fotografia que é ao mesmo tempo familiar e revigorante. A trilha sonora, mais uma vez assinada pelo colaborador habitual Alberto Iglesias, complementa a narrativa com uma musicalidade emocionalmente carregada, enriquecendo ainda mais a experiência do público. Há momentos na trilha que o espectador vai se sentir num suspense Hitchcockiano e em outros numa trama Nova Iorquina Woody Alleniana.

O Quarto ao Lado não é apenas o marco de estreia de Pedro Almodóvar no cinema de língua inglesa, mas uma obra que reafirma seu talento inconfundível para explorar o drama humano através de uma lente de compaixão, humor e sensibilidade. A narrativa, embora se mantenha em terreno familiar para o diretor, é intensificada pelas atuações cativantes de Julianne Moore e Tilda Swinton. Almodóvar consegue multiplicar a cumplicidade entre suas personagens sem cair no barato dos discursos edificantes, criando uma experiência que é, ao mesmo tempo, delicada e potente.

Ao redirecionar seu olhar para novas terras, o diretor prova que seu talento transcende idiomas, e que o coração de suas histórias  bate forte através da complexidade de suas personagens, não importa a língua em que sejam contadas. O Quarto ao Lado estreia nos cinemas brasileiros no dia 24 de outubro e será exibido na 48ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo entre os dias 17 e 30 de outubro.

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Até o próximo texto.