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Contos Paralelos

Contos Paralelos: Quem observa quem quando a vida começa a imitar a ficção?

Existe uma ideia frequentemente associada a Jiddu Krishnamurti que diz que “o observador é o observado”. É justamente nessa fronteira entre quem olha e quem é olhado que Contos Paralelos, de Asghar Farhadi, encontra uma de suas questões mais interessantes. Porque aqui observar nunca é um ato completamente passivo. A partir do momento em que alguém olha para a vida do outro, interpreta aquilo que vê e transforma essa realidade em narrativa, já não estamos mais falando apenas de observação. Estamos falando de interferência.

Sylvie (Isabelle Huppert) é uma escritora em crise criativa que praticamente não sai de seu apartamento em Paris. Cercada por uma casa caótica — quase como uma extensão visual de sua própria mente, algo que ela mesma verbaliza ao dizer que sua cabeça está um caos —, ela encontra nas janelas do prédio em frente uma possibilidade de voltar a escrever. Com uma pequena luneta, observa secretamente a vida de Anna (Virginie Efira), Theo (Pierre Niney) e Nicolas (Vincent Cassel) e começa a transformar aquelas pessoas em matéria-prima para sua ficção.

Mas até que ponto aquela história pertence realmente a eles?

Farhadi constrói seu roteiro revelando informações aos poucos, principalmente através dos diálogos, sem transformar cada descoberta em uma explicação para o espectador. Aos poucos, pequenas repetições começam a provocar um estranhamento. Sylvie corta o pé em um caco de vidro; depois, Anna também se corta. Sylvie comenta que não usa micro-ondas porque acredita que pode lhe causar câncer e prefere esquentar tudo em banho-maria; algum tempo depois, ouvimos praticamente a mesma ideia partir de Anna.

Coincidência? Projeção? Memória? Ficção?

É nesse momento que Contos Paralelos começa a brincar de maneira ainda mais interessante com a nossa percepção. Se Anna repete Sylvie, talvez aquilo que estamos vendo não seja exatamente a vida daquela mulher, mas a voz da própria escritora colocada em outra personagem. E quanto mais Sylvie observa aquelas janelas, mais parece usar pessoas reais para reconstruir algo que pertence a ela: suas lembranças, sua infância, seus pais e até um passado que talvez precise ser reinventado para continuar existindo.

A fotografia acompanha essa dúvida. Há uma diferença perceptível entre os dois universos. Anna, Theo e Nicolas aparecem inicialmente envolvidos por uma paleta mais fria, enquanto Sylvie, Adam e Laurence (India Hair) habitam tonalidades um pouco mais quentes. A distinção parece funcionar como uma pista para separar realidade e criação, presente e memória. Só que Farhadi não demora a embaralhar aquilo que parecia tão facilmente divisível.

E talvez seja justamente esse o ponto.

Quando Adam (Adam Bessa) entra na vida de Sylvie, contratado inicialmente para ajudá-la nas tarefas do cotidiano, ele também começa a entrar em sua história. Primeiro como curioso, depois como leitor e, finalmente, como alguém que passa a interferir na própria narrativa. Sylvie ganha um companheiro de observação. Ou talvez um substituto.

Adam também se torna voyeur.

Só que, a partir do manuscrito inacabado de Sylvie, ele começa a imaginar sua própria versão daqueles personagens. A história deixa de pertencer exclusivamente a quem começou a escrevê-la. Uma nova imaginação significa novas possibilidades e, consequentemente, uma nova perspectiva para aquelas vidas.

Existe algo muito bonito na ideia de que um personagem só permanece vivo enquanto houver papel, enquanto a tinta continuar lhe dando existência. Mas o que acontece quando esse personagem foi inspirado por alguém que existe do outro lado da janela?

É aí que a pergunta clássica — a vida imita a arte ou a arte imita a vida? — deixa de parecer apenas uma provocação filosófica e passa a interferir diretamente na estrutura do filme.

Sylvie e Adam olham para a vida e a transformam em arte. Anna, Theo e Nicolas, por outro lado, eventualmente entram em contato com essa arte e passam a permitir que ela interfira em suas próprias vidas. A ficção nasce da realidade e depois retorna para modificá-la. Uma alimenta a outra até que seja praticamente impossível descobrir qual delas veio primeiro.

E, no meio disso tudo, onde fica a privacidade?

Sylvie observa sem ser vista. Adam passa a observar com ela. Anna, Theo e Nicolas são observados até o momento em que também passam a olhar de volta. O observador se torna observado, e aquilo que parecia uma relação unilateral passa a funcionar como um espelho. Talvez ninguém consiga olhar para o outro por tanto tempo sem acabar encontrando alguma coisa de si mesmo.

Essa construção ganha ainda mais força através do som, que em Contos Paralelos praticamente assume a posição de um personagem. Não apenas porque Anna, Theo e Nicolas trabalham justamente com a criação de sons para o cinema ou televisão, mas porque Farhadi faz com que passemos a prestar atenção naquilo que normalmente seria absorvido quase inconscientemente.

O teclado de Sylvie, os ruídos da rua, pequenos sons cotidianos: tudo ganha uma presença muito concreta, quase plástica. E existe uma ironia especialmente interessante em acompanhar personagens que fabricam sons para dar veracidade a uma ficção enquanto o próprio filme questiona o tempo inteiro o que é verdadeiro e o que foi fabricado. Para muita gente, o som de um filme parece simplesmente existir. Contos Paralelos chama atenção justamente para o fato de que ele também é construção.

Assim como aquela história.

Talvez por isso uma das provocações mais interessantes venha de Adam: “É possível ser escritor sem nunca ter escrito uma linha?”

A pergunta parece simples, mas carrega outra questão por trás dela. É a escrita que transforma alguém em escritor ou é a capacidade de imaginar? Uma história precisa existir no papel para ser real? E por que a imaginação incomoda tanto quando ela começa a escapar de quem supostamente deveria controlá-la?

Para Anna, sua própria vida é comum, até monótona. Para quem a observa da janela, porém, ela pode se transformar em literatura. Talvez seja justamente esse o poder — e também o perigo — da imaginação: pegar uma existência aparentemente banal, preencher seus espaços vazios e criar uma história onde antes parecia não existir nenhuma.

Em Contos Paralelos, ninguém permanece apenas de um lado da janela. Quem observa acaba sendo observado. Quem inspira uma história passa a ser afetado por ela. Quem escreve já não controla completamente aquilo que escreveu.

E, quando vida e ficção começam a olhar uma para a outra, talvez descobrir qual delas está imitando a outra já nem seja mais o mais importante.

CONTOS PARALELOS NO FESTIVAL DO RIO

Contos Paralelos integra a programação do Festival do Rio e terá quatro exibições, sendo as duas primeiras sessões com a presença do diretor Asghar Farhadi. O cineasta também participa de uma aula aberta e gratuita no dia 3 de outubro.

SESSÃO DE GALA — com a presença de Asghar Farhadi
2 de outubro, sexta-feira | 19h
Cine Odeon — Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro

AULA ABERTA COM ASGHAR FARHADI
3 de outubro, sábado | 11h
Armazém Utopia
A entrada é gratuita para o público, com distribuição de ingressos uma hora antes do horário marcado. Evento sujeito à lotação.

SEGUNDA SESSÃO — com a presença de Asghar Farhadi
3 de outubro, sábado | 18h30
Reserva Cultural Niterói 1

TERCEIRA SESSÃO
4 de outubro, domingo | 21h45
Kinoplex São Luiz 2

QUARTA SESSÃO
6 de outubro, terça-feira | 16h
Estação Claro Gávea 3

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Bolero, o Mistério de Ravel

Bolero, O Mistério de Ravel , dirigido por Anne Fontaine, foi selecionado para a 15ª edição do Festival Varilux de Cinema Francês 2024. O filme exibe uma produção impecável, com um elenco adequado, figurinos e cenários de época meticulosamente recriados, e diálogos claros que elucidam a trama. No entanto, essa precisão e segurança podem ser vistas como uma abordagem excessivamente resumida e talvez asfixiante em termos de potencial narrativo.

“Nada é mais concreto do que a música.”

Bolero se passa em 1928, durante os vibrantes anos loucos de Paris, quando a dançarina Ida Rubinstein encomenda a Maurice Ravel uma composição para seu próximo balé. Enfrentando uma crise de inspiração, o filme nos leva a revisitar os capítulos da vida de Ravel, interpretado competentemente por Raphaël Personnaz, incluindo seus desafios precoces, as cicatrizes da Grande Guerra e um amor não correspondido por sua musa Misia Sert. Ravel, uma figura complexa e cartesiana, é retratado como um homem notavelmente sensível devotado à música – ao ponto de declarar que nunca se casou porque estava casado com a música.

“Acho que me perdi em minha própria música.”

Apesar da ambientação impecável e das boas intenções narrativas, o filme muitas vezes sucumbe a uma abordagem que não explora plenamente o potencial emocional e psicológico de seus personagens. Há vários filmes possíveis dentro deste, cada um mais provocativo que o outro, mas todos parecem asfixiados em suas possibilidades únicas por essa abordagem resumida. A repressão sexual de Ravel, por exemplo, é subutilizada; sua falta de impulso carnal é reduzida a gestos de afeto não correspondidos ou a incapacidade de expressar seus verdadeiros sentimentos. Essa explosão de possibilidade é tratada apenas como um pano de fundo, não alcançando o clímax emocional necessário.

O filme também deixa de explorar profundamente a percepção intelectual e emocional de Ravel em relação ao trabalho artístico da bailarina, evidenciando uma defasagem perceptiva entre ele e a dança meramente de um ponto de vista intelectual. Tais nuances estão presentes e disponíveis para o olhar atento, mas a direção de Fontaine, embora competente, não lhes dedica a atenção devida, preferindo manter uma narrativa segura e linear em um “safe zone”.

“A cada 15 minutos, alguém no mundo está tocando Bolero de Ravel.”

Bolero é um filme agradável, que sabe seduzir o espectador com sua mistura de leveza e beleza cativantes. No entanto, ele se revela uma obra sem grandes sustos narrativos, mas também sem grandes provocativas. Anne Fontaine, ao construir a biografia de Maurice Ravel, nos entrega um trabalho visualmente esplêndido, mas que parece se contentar em permanecer na superfície do drama do personagem, em vez de mergulhar nas profundezas de suas complexidades emocionais.

Distribuído no Brasil pela Mares Filmes e com classificação indicativa livre, o filme, apesar de suas sofisticadas pretensões e estudo meticuloso de época, poderia ter sido um estudo mais íntimo e penetrante de Ravel.

Você encontra Bolero no Festival Varilux 2024.

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Até o próximo texto.