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Ruas da Glória: O Amor à beira do abismo

Desde Tá e Fala Comigo, Felipe Sholl vem lapidando um olhar próprio sobre o desejo e o afeto. Em Ruas da Glória, essa crescente se confirma, Sholl parece mais solto, mais corajoso, e confortável para filmar o que muita gente ainda evita: o corpo, o tabu, o vazio. É um filme que respira o caos do Rio à noite, entre o suor, a luz e a falta dela.

Gabriel (Caio Macedo) chega à cidade depois da morte da avó, tentando encontrar vida onde antes só havia rotina. Professor de literatura, ele se torna observador e participante do que se mostra curioso: os homens que vendem prazer e sobrevivem do desejo alheio. Até conhecer Adriano (Alejandro Claveaux), um garoto de programa uruguaio que se torna seu ponto de fuga, e de queda. O que nasce como curiosidade vira dependência; o amor, aqui, é experiência de risco.

Felipe Sholl filma a cidade como extensão emocional dos personagens. As ruas da Glória e da Cinelândia não são apenas cenários, são estados de espírito. Há sempre algo pulsando; uma sirene, uma música de festa, um corpo que passa. O uso da câmera na mão e da lente anamórfica aproxima, comprime, e cria um sentimento de urgência. A exceção é a cena do espelho, o ponto de virada, quando a lente se fecha e o mundo de Gabriel também.

A relação entre Gabriel e Adriano é intensa e inquieta, feita de presença e ausência. Caio Macedo entrega uma atuação delicada, construída no olhar, na hesitação, na entrega contida, quase de uma inocência. Alejandro Claveaux equilibra vulnerabilidade e mistério, evitando a caricatura do “salvador” ou do “perdido”. A química entre os dois é crua, imprevisível, quase perigosa para não dizer tóxica.

Com trilha que vai de Letrux ao silêncio, o filme se move entre o documental e o delírio. O trabalho sexual, o luto e o vício aparecem não como choque, mas como consequência de um corpo que quer sentir e de um afeto que, às vezes, machuca mais do que cura.

Ruas da Glória é um retrato sobre o amor e seus desastres. Sobre a solidão que nem o corpo do outro resolve. Sobre a cidade que continua viva enquanto a gente desaba por dentro. Felipe Sholl filma com coragem e intimidade, transformando o caos noturno do Rio num espelho daquilo que ainda tentamos entender em nós mesmos.

Você encontra Ruas da Glória no Festival do Rio .
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Caramelo: O Brasil em Quatro Patas

A primeira cena de Caramelo já entrega tudo: um vira-lata faminto, um frango à mostra e Waldick Soriano cantando “Eu Não Sou Cachorro Não”. É quase uma síntese do país; a fome, o improviso e a trilha sonora nostálgica embalando o caos. Dirigido e roteirizado por Diego Freitas, o novo filme da Netflix tenta abrasileirar o subgênero dos “filmes de jornada canina” ao apostar num símbolo nacional. E embora o vira-lata do título seja o foco principal, o filme acaba dividindo o protagonismo entre o cão e seu dono, um chef de cozinha que também tem muito a aprender sobre sobrevivência.

Pedro (Rafael Vitti), um chef prestes a realizar o sonho de abrir seu restaurante, tem a vida virada do avesso ao descobrir um câncer. O ponto de virada vem em forma de quatro patas e olhar pidão: Caramelo, um vira-lata que muda o rumo da história, e a forma como Pedro enxerga a própria vida. É o tipo de sinopse que poderia facilmente escorregar para o sentimentalismo, mas Diego Freitas equilibra emoção e crítica social com alguma astúcia.

O filme não é sobre um cachorro “fofo”, é sobre o que ele representa. O caramelo é o retrato do Brasil real: abandonado, resistente e, ainda assim, disposto a oferecer afeto. De acordo com dados recentes da OMS, o país tem cerca de 30 milhões de animais abandonados — metade deles são cães. Estima-se que cerca de 10 milhões vivem nas ruas, e os abrigos públicos e privados estão constantemente lotados, com capacidade muito abaixo da demanda. Ou seja, a cena do cachorro roubando frango não é ficção: é um recorte do cotidiano de qualquer esquina.

Rafael Vitti encontra aqui um papel que foge da estética “galã de novela” e funciona bem. Ele entrega um personagem contido, atravessado pela solidão e pelo medo do tempo. O contraponto vem de Amendoim, o cãozinho real que interpreta Caramelo, e rouba o filme com carisma puro. Freitas acerta ao usar o cachorro como metáfora do país: alegre, sobrevivente e eternamente improvisado.

Visualmente, o filme tem um pé no realismo e outro no pop, talvez um reflexo da própria Netflix tentando domesticar a precariedade. A trilha sonora ajuda, as cenas em São Paulo têm textura e o elenco de apoio (incluindo Paola Carosella, em um papel pequeno mas simpático) sustenta o tom de humanidade.

Mas o maior mérito de Caramelo está fora da tela: os 60 cães usados nas filmagens foram resgatados e adotados pela própria equipe. Num país onde a cada esquina há um olhar canino pedindo cuidado, esse gesto transforma a ficção em ação e conscientização.

No fim, Caramelo é sobre o que sobra quando a pressa e a indiferença passam: o olhar de um animal abandonado que ainda acredita na gente. E talvez, no meio de tanto cinismo, seja disso que o Brasil mais precise — um pouco de lealdade, mesmo depois de tantos perrengues.

Você encontra Caramelo na Netflix.

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Perrengue Fashion: Quando o riso encontra o Recomeço

Há algo de muito especial em ver uma comédia brasileira ocupar o espaço de destaque em um festival. Perrengue Fashion, dirigido por Flávia Lacerda e protagonizado por Ingrid Guimarães, representa esse marco; não apenas por abrir espaço para o humor, mas por mostrar que a comédia também pode provocar reflexão, revisitar afetos e nos confrontar.

Paula Pratta (Guimarães) é uma influenciadora de moda que vive num universo de filtros, campanhas e hashtags. Quando o filho (Filipe Bragança) abandona tudo para se dedicar a um espaço de permacultura na Amazônia, ela se vê obrigada a atravessar a floresta e, com isso, a si mesma. A jornada, que começa como uma busca desesperada pelo filho para participar de uma campanha publicitária fashion, transforma-se numa travessia sobre o que realmente importa.

Flávia Lacerda conduz a narrativa com leveza, sem perder de vista a humanidade dos personagens. Ingrid Guimarães, já reconhecida por sua força cômica, entrega aqui uma atuação madura, divertida, mas também sensível. Há um brilho de vulnerabilidade em Paula: a mulher que precisou ser tudo sozinha, que venceu barreiras sociais, e que agora tenta controlar o futuro do filho como forma de garantir a própria segurança emocional. É nesse controle que mora o drama silencioso da personagem e a comédia surge justamente no atrito entre a fantasia do mundo perfeito e o colapso inevitável da vida real.

O roteiro, assinado por Ingrid, Edu Araújo, Célio Porto e Marcelo Saback, encontra equilíbrio entre humor e crítica. Os diálogos permitem que o riso se converta em afeto. Há momentos genuinamente engraçados, muito pela química entre Ingrid e Rafa Chalub, que forma com ela uma dupla improvável e irresistível. Chalub, vindo das redes sociais, surpreende pela naturalidade.

Mas Perrengue Fashion vai além da comédia de choque cultural. Ele fala sobre as mães solo que carregam o peso de criar sozinhas, sobre a geração que precisa reaprender a escutar os filhos, e sobre o desconforto de sair da zona de conforto, seja ela o feed do Instagram ou o apartamento de classe média.

No fundo, é um filme sobre recomeço. Sobre quando a floresta, literal e simbólica, obriga a gente a tirar os saltos, pisar na terra e lembrar quem éramos antes de tudo virar performance, antes de tudo ser para o outro, quando era por nós.

Ingrid Guimarães prova, mais uma vez, que sabe rir de si mesma e transformar esse riso em algo maior: empatia. Perrengue Fashion faz rir, mas também faz pensar.

Você encontra Perrengue Fashion nos cinemas a partir do dia 9 de Outubro.

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In-I in Motion — Corpo que Dança o Próprio Medo

Ontem assisti In-I in Motion no Festival do Rio. Dirigido e estrelado por Juliette Binoche, o filme parte de um gesto de coragem: o de se colocar vulnerável diante da arte e da própria limitação.

Em 2007, Binoche decidiu se afastar do cinema para criar um espetáculo de dança com o coreógrafo Akram Khan. O acordo entre os dois era simples e simbólico; ela o ajudaria a se tornar um ator melhor, e ele a ensinaria a dançar. Dessa troca nasceu o espetáculo In-I, e agora o filme, que mistura bastidores, ensaios e performance em um só movimento.

É curioso observar uma atriz do tamanho de Binoche se despindo da segurança da atuação para explorar um novo corpo. O documentário registra o processo cru: ensaios longos, tropeços, cansaço, frustrações e momentos de descoberta. Há algo de profundamente humano em vê-la aprender a respirar de outro jeito, cair e levantar, buscar o ritmo com o corpo inteiro. A dança que nasce do erro é, talvez, a mais verdadeira.

Em muitos momentos, In-I in Motion se torna um espelho da relação entre Binoche e Khan,  dois artistas tentando acessar o que há de mais autêntico no outro. Entre o atrito e a parceria, o filme encontra sua pulsação. É arte lapidando arte.

Durante o festival, Binoche comentou que não gostou completamente do resultado final e que o espetáculo completo ao fim foi uma decisão da distribuidora. Ela trabalha em um novo corte, trinta minutos mais curto. E faz sentido: há um respiro que o filme ainda busca, uma leveza que cabe melhor em sua proposta.

Mas o que mais me tocou foi o que ela disse após a sessão: que todos temos um artista dentro de nós, e que o desafio é vencer o medo de acessá-lo. Em In-I in Motion, ela faz exatamente isso,  enfrenta o medo com o corpo, sem máscaras, sem controle, sem se esconder.

Como espectadora, admirei a coragem. Como artista, senti vontade de me mover também,  de errar mais, tentar mais, existir mais. In-I in Motion não é apenas um filme sobre dança; é sobre libertar o corpo da exigência de perfeição.

No fim, o essencial permanece: o instante em que o medo se transforma em movimento.

Você encontra In i In Motion no Festival do Rio.

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Alpha — Corpo como Contágio e Salvação

Alguns filmes não terminam quando a tela escurece, eles permanecem dentro da gente, como uma febre. Alpha, novo longa de Julia Ducournau, é exatamente isso: um filme que arde, coça e não cicatriza.

Escrito e dirigido pela cineasta que redefiniu o horror corporal com Raw e Titane, Alpha é, antes de tudo, um mergulho na carne; mas uma carne que apodrece e se desfaz em pó, que não grita, mas silencia. Um drama familiar que começa íntimo e termina apocalíptico, questionando o que acontece quando o amor e a infecção se tornam indistintos.

Assisti Alpha no Festival do Rio  e confesso: minhas expectativas eram enormes. Julia Ducournau é minha diretora preferida. Há algum tempo, quando me perguntaram quem eu mais admirava no cinema, não soube responder. Só soube depois de ver Raw e Titane. Ali entendi que o cinema dela me atravessa de um jeito raro: é físico, feminino e selvagem. Ela filma o corpo como quem filma a alma.

E Alpha reafirma isso. Já na cena inicial, uma menina desenha nas feridas do homem que cuida dela, ligando cicatrizes como quem tenta reconstruir uma constelação perdida. É belo e incômodo, quase impossível desviar o olhar. A câmera de Ducournau tem essa delicadeza brutal: a de nos fazer olhar mesmo quando queremos desviar.

“Não é um bom momento para sangrar.”

Quando o filme corta para o tio de Alpha se drogando, vi ali um eco de Réquiem para um Sonho. A agulha, a pele, o desespero. Mas o que mais me marcou foi a cena seguinte: Alpha, já adolescente, bêbada em uma festa, deixando que alguém tatue um “A” torto em seu braço. Naquele momento, me vi lembrando do que assistia aos treze, como Eu, Christiane F. e Skins. Aquela mistura de descoberta e autodestruição, o desejo de pertencer e o medo de se perder. Julia Ducournau entende esse limiar como poucos, o instante em que o corpo quer ser livre e acaba virando prisão.

O filme é uma grande odisseia pandêmica. A infecção aqui é tanto literal quanto simbólica: corpos que se tornam mármore antes de se dissolver em pó branco. O medo se espalha, e a sociedade se desintegra — um reflexo de tudo o que vivemos, do isolamento, da paranoia, da falta de toque. Há um momento em que a mãe de Alpha, interpretada de forma arrebatadora por Golshifteh Farahani, limpa o vômito da filha e descobre o corte fresco da tatuagem, e eu senti o nó na garganta de quem ama e teme ao mesmo tempo.

Tahar Rahim está esplêndido como o tio, um corpo frágil, doente e cheio de culpa. A relação entre os três: mãe, filha e irmão,  é o coração pulsante do filme. É onde Ducournau transforma o horror em ternura, a doença em vínculo.

E como sempre, a trilha sonora é um personagem à parte. Quando Portishead começa a tocar logo no início, senti aquele arrepio que só o cinema dela provoca,  como se cada batida de som fosse uma gota de sangue caindo em câmera lenta.

“Deve ser um inferno ser criança hoje em dia.”

Sim, o último ato se estende demais, com saltos temporais um pouco confusos. Mas mesmo ali, há uma coerência emocional: o caos é parte da experiência. Alpha é um filme sobre o colapso,  do corpo, da família, do mundo.

Saí da sessão com a sensação de estar coberta pelo mesmo pó branco que domina a tela. Como espectadora, senti o incômodo físico; como roteirista, admirei a coragem. E como mulher, me reconheci naquele gesto final,  o de tentar religar a carne rasgada de alguém.

No fim, Alpha não é sobre vírus. É sobre o contágio que é amar alguém até o limite da dor. E talvez seja por isso que eu continue pensando nele — e em Julia Ducournau — muito depois que a luz do cinema se apagou.

Você encontra Alpha no Festival do Rio.

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GOAT — Entre o Corpo, o Mito e o Preço da Grandeza

Ontem eu assisti GOAT. Dormi com ele e acordei com ele, e talvez isso diga mais sobre o filme do que qualquer análise técnica. Porque GOAT reverbera. Incomoda. Fica. E talvez fique justamente porque toca num ponto que o cinema raramente se atreve a encarar com tanta brutalidade: a dor física e simbólica do esporte.

Dirigido por Justin Tipping e apadrinhado por Jordan Peele, o filme acompanha Cameron “Cam” Cade (Tyriq Withers), um jovem quarterback em ascensão que, após uma lesão quase fatal, recebe uma segunda chance das mãos do seu maior ídolo, Isaiah White (Marlon Wayans). O que começa como um sonho se transforma em um pesadelo ritualístico — um mergulho na masculinidade tóxica, na idolatria e nos limites entre treino, tortura e transcendência.

O título GOAT — Greatest of All Time — é mais do que uma sigla de grandeza; é uma sentença. A busca pelo “melhor de todos” se torna literal e monstruosa, quando a linhagem dos GOATs é revelada como uma sucessão de corpos sacrificados, sangue transferido, poder herdado. Há algo de religioso e profano nesse ciclo: cada geração de atletas devora a anterior, numa metáfora explícita da sociedade que consome seus heróis até o osso.

Como espectadora e como roteirista, me vi dividida. Há uma ideia potente ali; um terror corporal que conversa com a pressão do desempenho, com o corpo como campo de guerra e com a mente como campo minado. Há momentos em que o filme encontra essa carne pulsante, principalmente quando Cam treina sob o sol cortante do deserto, e o suor parece se misturar à loucura. Mas entre o segundo e o terceiro ato, a narrativa se perde: as metáforas se tornam literais demais, o visual repete fórmulas, e o clímax parece apressado;  mais preocupado em chocar do que em aprofundar.

Como esportista, reconheço o que o filme tenta dizer: o sacrifício, a cobrança, o vazio depois da glória. Aquele lugar em que só a dor te faz seguir em frente. Mas como alguém que vive o cinema, senti falta de ritmo, de sutileza e de consistência visual. A fotografia e a montagem flertam com algo interessante: os flashes em raio X, a mudança de temperatura de cor,  mas acabam se tornando excessivas, previsíveis.

Mesmo assim, GOAT me tocou num ponto íntimo: essa mistura entre corpo e mente, entre fé e dor, entre o sonho e o pesadelo de ser “o melhor”. Há uma linha fina entre superação e autodestruição, e o filme caminha exatamente sobre ela, tropeçando, às vezes, mas deixando rastros.

No fim, o sangue que escorre do corpo de Cam é o mesmo que escorre de qualquer um que já tentou ser perfeito demais em algo. GOAT não é um filme redondo, mas é um espelho rachado — e às vezes é neles que a gente mais se reconhece.

Você encontra The Goat nos Cinemas.

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Rabia – As Esposas do Estado Islâmico (2024)

Assisti Rabia na sessão de abertura da 2ª edição do Festival de Filmes Incríveis e saí da sala em silêncio. Com aquele silêncio pesado, cheio de pensamento. É um filme que não grita. Ele murmura. Ele aperta. Ele marca.

Inspirado na história real da marroquina Faitha Mejjati (a temida Oum Adam), o longa de Mareike Engelhardt, em sua estreia como diretora, mergulha num dos aspectos menos explorados (e mais assustadores) do regime do Daesh: as madafas, casas onde jovens mulheres ocidentais, convertidas e doutrinadas, aguardavam para se tornarem esposas dos combatentes.

Acompanhamos Jessica, uma jovem francesa, que troca a promessa de liberdade por uma cela invisível em Raqqa. Inicialmente deslumbrada pela promessa de pertencimento e fé, ela logo se vê nas mãos de Madame (vivida por Lubna Azabal), uma figura carismática, fanática e cruel. Uma verdadeira regente do silêncio, da manipulação e do apagamento feminino.

O filme acerta ao fugir do sensacionalismo: não mostra a violência diretamente, mas ela está ali; nos ruídos abafados, nas portas trancadas, nos olhares desviados. A encenação usa o fora de campo como arma estética e emocional. O som, o silêncio, as marcas no corpo e na alma falam mais alto que qualquer diálogo.    Mereike Engelhardt entende o poder do não dito, e é nesse não dito que o horror cresce.

A fotografia de Agnès Godard é outro destaque: claustrofóbica quando precisa ser, etérea em alguns momentos, ela acompanha visualmente a transformação (e deformação) de Jessica: de uma jovem idealista a alguém dilacerada e moldada pela dor. A trilha sonora de David Chalmin, tênue e incômoda, reforça essa espiral sombria.

Mas talvez o maior acerto de Rabia seja o roteiro. Ele não explica, não paternaliza, não julga. Ele observa. Ele denuncia. E nos convida a refletir. Mulheres que buscam uma nova vida, uma identidade, acabam encontrando o contrário disso: submissão, vigilância, apagamento.

E há uma reviravolta cruel: o ciclo da violência se perpetua. Jessica se torna Oum Rabia (“raiva”), e a vítima começa a reproduzir aquilo que sofreu. A cena da virada é seca, sem alarde e por isso mesmo tão devastadora.

Rabia é, sim, duro. Mas necessário. Um retrato quase inédito dessas casas-prisões comandadas por mulheres, onde outras mulheres eram treinadas, moldadas e, muitas vezes, destruídas. E é também um lembrete: ainda hoje, muitas dessas meninas continuam presas no campo de refugiados de Al-Hol, vivendo o rescaldo do extremismo.

No final, o filme não oferece respostas fáceis, mas uma fagulha de esperança. E a pergunta que fica, ecoando depois dos créditos, é: quantas outras Jessicas ainda estão por aí, acreditando que estão sendo salvas, quando na verdade estão sendo silenciadas?

Você encontra Rabia- As Esposas do Estado Islâmico nos Cinemas a partir do dia 21 de Agosto .

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Premonição 6: Laços de Sangue — A Morte Nunca Esquece

A franquia Premonição sempre teve um pacto com o espectador: provocar calafrios existenciais por meio de acidentes improváveis e mortes inevitáveis. Quem assistiu aos filmes anteriores sabe do que estou falando — é impossível não acelerar o passo ao ver um caminhão de toras pela frente ou repensar a ideia de entrar numa cama de bronzeamento. Com Laços de Sangue, sexto capítulo da saga, esse pacto é renovado com sangue, medo e um inesperado toque de emoção familiar.

Dirigido por Zach Lipovsky e Adam B. Stein, e com roteiro assinado por Guy Busick (Pânico 5 e 6), Lori Evans Taylor e Jon Watts, o novo filme surpreende ao deixar de lado os grupos de amigos e apostar em uma narrativa centrada numa família assombrada por uma maldição transgeracional. A jovem Stefanie (Kaitlyn Santa Juana) começa a ter visões brutais envolvendo a morte dos seus entes queridos. Buscando respostas, ela retorna às suas origens e encontra na avó Iris (vivida por Gabrielle Rose e por Brec Bassinger, em flashbacks) o fio da meada de um trauma que remonta aos anos 60 — uma era em que o destino também tentou, em vão, ser burlado.

O que eleva Laços de Sangue entre os melhores da franquia em relação aos últimos é justamente o roteiro: coeso, bem ritmado e emocionalmente ancorado. As mortes aqui voltam a ter um propósito. Não são apenas acidentes mirabolantes — são presságios cuidadosamente arquitetados para mexer com o imaginário do espectador. Você sai da sala de cinema pensando duas vezes antes de fazer um churrasco ou até ir à um hospital. A sensação de vulnerabilidade retorna com força.

A trilha sonora é outro trunfo do filme. Ela age como prenúncio, criando uma tensão que pulsa como um batimento cardíaco prestes a parar. Já a direção, apesar de competente na condução dos sustos, peca por um excesso de artificialidade em suas sequências iniciais — em especial na cena da torre, onde a computação gráfica compromete a imersão.

Mas Laços de Sangue não é só sobre sustos. É também sobre legado. Ao trazer de volta Tony Todd como o icônico JB — agora com uma história de origem revelada —, o longa amarra pontas soltas e oferece aos fãs da franquia uma recompensa tardia: a compreensão de que a Morte, neste universo, é uma entidade impessoal, mas vigilante. JB é o elo entre gerações de sobreviventes e também um lembrete de que ninguém escapa para sempre.

Ao optar por um elo de sangue como núcleo emocional, Premonição 6 revigora sua mitologia e reafirma sua relevância. É um retorno digno, sangrento e, acima de tudo, eficaz. Porque o que realmente marca um bom filme Premonição não é apenas como se morre — mas o quanto essas mortes nos fazem temer pela nossa própria vida e pensa-las no cotidiano.

Você encontra Premonição 6- Laços de Sangue nos Cinemas a partir do próxima quinta-feira (15 de Maio).

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Os Sapos – Entre Relações Tóxicas e a Busca por Identidade

Adaptação da peça homônima de Renata Mizrahi, Os Sapos é um filme que transita entre o drama e a comédia com uma naturalidade desconcertante. Sob a direção de Clara Linhart, a narrativa se desenrola em um cenário bucólico que, paradoxalmente, abriga tensões sufocantes e relações marcadas pela toxicidade emocional.

A trama acompanha Paula (Talita Carauta), uma mulher de quase 40 anos que viaja para um reencontro com amigos do colégio, apenas para descobrir que a confraternização foi cancelada. Presa no local até o dia seguinte, ela convive com Marcelo (Pierre Santos) e sua namorada não assumida, Luciana (Karina Ramil), além do casal vizinho, Cláudio (Paulo Hamilton) e Fabiana (Verônica Reis). A presença inesperada de Paula acaba funcionando como um catalisador para expor as frustrações e conflitos que essas relações carregam.

O grande trunfo do filme é seu olhar afiado sobre o amor e suas amarras invisíveis. Aqui, não se trata do romantismo idealizado, mas do amor que aprisiona, que mina a autoestima e que, muitas vezes, se confunde com dependência emocional. Através de diálogos ágeis e uma atmosfera quase teatral, Os Sapos mergulha na fragilidade dos vínculos humanos, sem entregar respostas fáceis.

Talita Carauta é o coração do filme. Conhecida por seus papéis cômicos, a atriz surpreende ao carregar a complexidade de Paula com sutileza e intensidade, dominando cada cena sem precisar de grandes gestos ou falas. Sua presença nos conduz por um enredo que se desenrola  permitindo que os espectadores sintam a crescente tensão entre os personagens.

O roteiro de Renata Mizrahi é certeiro ao abordar dinâmicas de poder dentro dos relacionamentos. O casal Cláudio e Fabiana, por exemplo, encarna a caricatura do amor tóxico sustentado por manipulação e insegurança. Já Marcelo e Luciana representam a zona cinzenta dos relacionamentos modernos, onde a falta de compromisso não é liberdade, mas sim um sintoma de algo mais profundo e disfuncional.

Vencedor de prêmios no Festival Internacional de Cinema de João Pessoa e reconhecido em festivais internacionais, Os Sapos prova que um filme não precisa de grandes reviravoltas para ser impactante. Com um elenco afiado e um roteiro que provoca reflexões sobre os padrões emocionais que seguimos (muitas vezes sem perceber), essa tragicomédia se firma como um retrato perspicaz das relações humanas.

Os Sapos já está nos cinemas. Vale a pena conferir e refletir sobre as relações que escolhemos (ou aceitamos) viver.

Você encontra Os Sapos nos maiores Cinemas.

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A Semente do Fruto Sagrado

A Semente do Fruto Sagrado emerge como uma obra rica em camadas, refletindo não apenas a realidade angustiante do Irã contemporâneo, mas também a corajosa determinação de seu diretor e roteirista, Mohammad Rasoulof, que, com talento e criatividade, conseguiu produzir este filme em um ambiente de opressão e censura. Realizado clandestinamente, a obra não só se posiciona como um grito de resistência cultural, mas também como um poderoso relato pessoal de sua luta contra um regime autoritário que o persegue.

Inspirado pela trágica morte de Mahsa Amini, que acendeu uma onda de protestos pela liberdade no Irã, o filme segue a vida de Iman (Missagh Zareh), um investigador judicial cujo mundo é desmantelado por sua paranoia e pela corrupção que o cerca. Ao perceber que sua esposa e filhas não compartilham suas opiniões políticas, Iman inicia uma espiral de desconfiança e tensão familiar. À medida que o conflito se intensifica, a narrativa se transforma em um espelho das lutas sociais que estão acontecendo no país.

O que torna A Semente do Fruto Sagrado ainda mais impressionante é o contexto em que foi desenvolvido. Rasoulof, que já enfrentou a prisão e perseguições por suas obras críticas ao regime iraniano, consagrou seus esforços à realização deste filme de forma clandestina, consciente dos riscos que isso acarretaria. Esta coragem é palpável em cada quadro, e o peso de sua realidade pessoal se entrelaça com a história que ele conta. Rasoulof não apenas narra uma trama de ficção; ele expõe as duras realidades de viver em um estado que persegue e silencia vozes dissidentes.

O roteiro é meticulosamente elaborado, utilizando simbolismo e metáforas que conectam a tragédia familiar com a luta mais ampla pela liberdade no Irã. As interações entre os personagens são repletas de nuances, refletindo o estado psicológico de uma nação frente à opressão. O equilíbrio entre a ficção e a realidade é feito com uma sofisticação que permite ao espectador vivenciar a tensão crescente, onde cada escolha do protagonista é uma questão de vida ou morte, não apenas para ele, mas para sua família. Visualmente, o filme é impressionante, com planos que capturam a beleza e a agonia do cotidiano iraniano, criando uma conexão emocional que transcende cultura e geografia.

Rasoulof transforma uma narrativa de opressão em uma exploração profunda das relações familiares. A desconexão entre Iman e suas filhas e esposa representa não apenas a fragmentação do núcleo familiar, mas também como o totalitarismo infiltra e destrói os laços humanos. A luta pela liberdade de expressão e a resistência à opressão são palpáveis em cada cena, tornando o filme uma alegoria da condição humana em tempos de crise.

A Semente do Fruto Sagrado é uma obra audaciosa que não apenas destaca a opressão enfrentada no Irã, mas se torna um testemunho da resistência criativa frente à censura. A coragem de Mohammad Rasoulof em realizar este filme é um ato de coragem que ressoa com todos aqueles que defendem a liberdade de expressão. Com uma narrativa poderosa, o filme desafia o público a refletir sobre a luta pela justiça e a necessidade de coragem para resistir.

Você encontra A Semente do Fruto Sagrado nos Cinemas.

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